terça-feira, 22 de setembro de 2015

Povo brasileiro! Aperte o cinto: o governo sumiu!

O (des) governo Dilma entrou em rota de colisão com o seu fim antecipado sem perspectiva de salvação. Os seus aliados agem como kamikazes e a Presidenta persegue o seu haraquiri político cercada de plantadores de casca de banana por todos os lados.
A estratégia das oposições de provocar o desgaste e o descrédito do governo está funcionando e produzindo resultados, mesmo que em detrimento do país como um todo. A falta de confiança na política aprofunda as dificuldades econômicas e alimenta um cenário arriscado de deterioração progressiva.
Mas, o mais interessante é que a oposição está sendo ajudada pela própria base de apoio do (des) governo (se é que isso existe). E em muitos casos recebe uma mãozinha até da Presidenta em pessoa.
Dilma tem demonstrado total incapacidade de liderança e não consegue articular a governabilidade necessária para acalmar os mercados e colocar o país nos trilhos do crescimento econômico. Cada vez que ela tem uma oportunidade para discursar ou anunciar novas medidas a situação se agrava.
Os seus discursos tragicômicos impõem um descrédito desmedido para o que seria a maior liderança política do país. No sistema presidencialista brasileiro, a falta de um líder político com a capacidade de articular e de gerar governabilidade compromete a sua sustentabilidade.
Os índices de popularidade da Presidenta comprovam que o povo brasileiro sabe votar e, sobretudo, sabe no que está votando. Quem votou em Dilma sabe perfeitamente que ela não está fazendo o que prometeu na campanha.
Ao contrário, o seu (des) governo está totalmente descaracterizado. Existe um hiato entre o discurso de campanha e as ações de (des) governo. Neste sentido, não há como se falar de legitimidade.
Dilma se sustenta apenas na prerrogativa da legalidade do mandato. Só não se sabe até quando.
O discurso da legitimidade do voto não sustenta uma Presidenta que (des) governa distante de suas promessas de campanha. A legitimidade não se consolida, ou congela, no momento do voto.
A eleição garante a legalidade da representação, mas a legitimidade depende dos atos de governo que têm que estar em consonância com os compromissos de campanha. Se a pessoa que foi eleita muda as suas propostas e não cumpre os seus compromissos, a sua legitimidade pode e deve ser questionada numa democracia.
O mandato não permite que o governante faça o que bem entender. Não é possível ter um discurso de campanha e outro completamente diferente quando assume o governo.
A legitimidade de qualquer governo é construída através de suas ações e não apenas da eleição. E as ações de governo devem ser coerentes com os compromissos de campanha e com um projeto de país que é defendido durante os debates eleitorais.
Se não existe coerência entre o discurso de campanha e a ação de governo, é possível se falar de estelionato eleitoral. Os índices de popularidade do (des) governo Dilma são a prova de que o povo não está satisfeito com as medidas que estão sendo adotadas. Isso é o resultado da distância que existe entre o discurso de campanha e as ações do (des) governo.
Não há do que se falar em golpe neste caso. Golpe é usar um discurso para se eleger e governar de outra forma totalmente diferente.
O (des) governo Dilma acabou mesmo antes de começar. O seu discurso de campanha foi uma grande mentira. Os que acreditaram se sentem enganados com toda razão.
Uma pessoa, ou um político, pode enganar outras pessoas ou grupos. Mas, enganar milhões de brasileiros? Fica difícil.
Afinal, qual é o projeto do (des) governo Dilma? Depois de nove meses, não há resposta. Somente uma certeza, a Presidenta perdeu a legitimidade para governar.
O (des) governo Dilma não tem sustentabilidade. Sem apoio do Congresso e da população, prolongar a sua permanência é aprofundar a crise de governabilidade e de governança política e econômica.

Dilma deveria negociar os ajustes necessários para o país com o seu cargo na mesa, e preparar uma transição para um governo com capacidade de gerar legitimidade. Mas, acreditar que os políticos possam pensar no país e não em si próprios é querer demais. Enquanto isso, a crise se agrava e o país fica à deriva.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Os desafios da democracia participativa no século XXI

Não há como dar conta de todos os desafios da democracia participativa no século XXI. No entanto, é possível apontar alguns que chamam a atenção a partir de experiências recentes.
No plano geral, o desafio é consolidar as experiências existentes em nível municipal, criar novas, e implantar em nível estadual e federal. Na Paraíba o destaque em nível municipal é para o Orçamento Democrático – OD (2005-2012) e o Orçamento Participativo – OP (a partir de 2013) em João Pessoa e, em nível estadual, O Orçamento Democrático Estadual – ODE (a partir de 2011).
Além dos governos, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) também implantou, a partir de 2013, um programa denominado de Universidade Participativa (UP), na perspectiva da democracia participativa. Neste caso, o objetivo é identificar as prioridades e estabelecer um diálogo da comunidade com a Reitora e sua equipe em audiências públicas em todos os centros. O desafio é mudar a cultura política organizacional e democratizar a decisão sobre a aplicação dos recursos que são públicos.
Mas, apesar de muitas experiências exitosas de gestão participativa no Brasil afora, o nível de informação e de transparência da gestão pública, que é essencial, ainda é baixo. Mais ainda, não se avançou no sentido do planejamento e da governança participativa.
Muitos não priorizam a informação como mecanismo de consolidação de uma memória histórica das políticas participativas. A criação de um banco de dados das políticas públicas nas diferentes áreas seria uma alternativa que poderia suprir essa fragilidade.
Quando ocorre uma mudança de governo ou de gestão, por exemplo, é comum que a memória vá junto com os arquivos pessoais dos que deixam os cargos. Os novos gestores ficam sem referência, e isso denota uma baixa institucionalidade das políticas na maioria esmagadora dos órgãos públicos do país.
Muitas vezes, as pesquisas na universidade sofrem com a falta de dados das políticas públicas. Os gestores dão muito pouca atenção a isso, pois são provisórios nos cargos e estão sempre almejando algo mais na frente.
Talvez, este seja um dos maiores desafios do século XXI para a democracia participativa: começar a pensar no legado das experiências do presente para as futuras gerações, e na história da sociedade como processo de construção coletiva de longa duração.
A história é pesquisada e sistematizada nas universidades e contada nas escolas. Mas, para fazer esse trabalho é preciso que as instituições comecem a agir como órgãos públicos republicanos comprometidos com o desenvolvimento e a memória do país.
Os dados podem fornecer os argumentos em favor da democracia participativa, pois esta pressupõe a prestação de contas, que envolve mais informação e transparência. Os grupos contrários à política participativa sempre procuram ‘rotular’ o processo alegando que se trata de ‘cooptação de lideranças’ ou de ‘populismo’.
A formação de novos quadros é um dos desafios da democracia participativa, ativando outros setores da sociedade para além do sistema representativo. Não se trata, porém, de uma formação ‘dentro’ do Estado com objetivo de autolegitimação. Trata-se do Estado criar as condições para que a expressão da sociedade possa ir além do monopólio da representação político-eleitoral.
Os orçamentos participativos também são rotulados por esses mesmos grupos de ‘políticas focalizadas’ nos menos favorecidos. No entanto, as políticas voltadas para um determinado grupo social acabam impactando na sociedade como um todo. Os dados quantitativos e qualitativos das experiências existentes podem dar uma resposta consistente sobre o caráter universal da democracia participativa.
A missão é comprovar que a gestão participativa pode ser exitosa e melhor do que a política decidida no gabinete por poucas pessoas. Do contrário, como ampliar a cultura da participação? É preciso entender a participação como processo de legitimação da decisão.
A democracia participativa tem que deixar de ser uma política de governo para ser uma política de Estado. E o desafio é mostrar com dados que a participação tem um papel importante na construção da cidadania e da própria democracia.
Outro desafio é desenvolver uma cultura participativa dentro do governo, nas diferentes secretarias. A gestão participativa deve ser na saúde, na educação, infra-estrutura, meio ambiente etc.
O governo deve prover o devido suporte aos espaços de participação, como no caso dos conselhos de saúde, educação, assistência social, desenvolvimento urbano, meio ambiente etc. Além disso, é importante governar consultando a sociedade, os especialistas e os movimentos sociais organizados.
De nada adianta promover um orçamento participativo e não privilegiar as instâncias de participação como os conselhos. É preciso governar com ‘reflexo democrático’.
Não adianta promover um processo participativo e fazer intervenções sem consultar a sociedade. É importante dialogar mais e prestar contas do que se pretende fazer, do que já foi feito, e do que pode e não pode ser realizado.
Muitos estudos sobre políticas participativas se concentram no percentual de recursos financeiros investidos, que é geralmente 10% do montante total. Isso pode provocar descrédito para alguns, como se houvesse apenas um interesse eleitoreiro para beneficiar o gestor que realiza encontros constantes com a população para ouvi-la. O desafio é aumentar substancialmente esse percentual e fortalecer as relações entre a gestão pública e a sociedade.
Outro grande desafio é desenvolver de forma criativa e permanente a metodologia participativa sem perder de vista a essência que é o contato entre a comunidade e o gestor, com as devidas demandas e prestação de contas. Além dos encontros presenciais, novas ferramentas (como internet e redes sociais) devem ser cada vez mais utilizadas como mecanismo de comunicação.

Por fim, deve-se romper a barreira do público mais carente e alcançar outros segmentos da população que podem contribuir também com sugestões, prioridades e exercer o tão propalado controle social sobre o governo. Para tanto, os conflitos decorrentes dos interesses dos políticos eleitos pelo sistema representativo (vereadores e deputados), e a falsa dicotomia da democracia participativa versus democracia representativa, devem ser superados.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O governo Dilma e a crise: do início ao fim.

O governo Dilma ainda não conseguiu se livrar do terceiro turno eleitoral e sofre as conseqüências da maior polarização política com características de ‘classes antagônicas’ já vistas no Brasil contemporâneo. Cada vez mais isolada e sem rumo, a Presidenta corre sério risco de não terminar o seu mandato.
A estratégia das oposições de ‘sangrar’ o governo até cair e livrar o país do Partido dos Trabalhadores (PT) tem funcionado até agora. A crise econômica é alimentada todos os dias pelas oposições que criam no imaginário coletivo um cenário de caos que termina por engendrar um ciclo vicioso que afugenta os investidores e cria um clima de incerteza cada vez maior.
Para as oposições, o cenário é o melhor possível, com grandes perspectivas de alternância de poder no horizonte, mesmo que em detrimento da estabilidade do país como um todo. Não importa a magnitude do problema e o impacto social que causa na população. Quanto pior, melhor.
Se o governo continuar acertando e o país melhorando, o PT vai continuar no poder, e isso não é ‘aceitável’ para as oposições derrotadas no processo eleitoral. Ou seja, grande parte da população não tolera mais os sindicalistas, marxistas e ex-pobres ocupando espaços de destaque na política, na gestão pública, mas também nos aeroportos, hotéis, lojas de automóveis, com moradias dignas entregues ‘de graça’ etc., coisas que antes eram reservadas apenas para as elites intelectuais e econômicas.
Todo esse clima de insegurança começou bem antes do primeiro turno das eleições. Os candidatos das oposições lançaram mão do discurso da crise fiscal para conquistar os eleitores diante de um governo com bons resultados para apresentar. O discurso era de que os bancos estatais estavam quebrados; o Brasil estava caminhando para o abismo; não sabiam se sobraria alguma coisa para quando assumissem o governo. O mais puro terrorismo eleitoral não passou impune pela sociedade e principalmente pelos mercados financeiros.
De um lado, a alternativa das oposições era o receituário ortodoxo neoliberal de ajuste fiscal para resgatar a economia e tirar o PT do poder. De outro, a Dilma defendia a política do seu governo de investimentos e subsídios, e que havia garantido até então o crescimento econômico mesmo que pequeno num cenário internacional adverso.
A maioria da população decidiu dar o voto de confiança na continuidade do modelo de desenvolvimento com participação do Estado e distribuição de renda. No entanto, ao tomar posse a presidenta Dilma nomeou um ministro da economia com pouca habilidade política e que reza na cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI), um receituário ortodoxo comprovadamente ineficaz, sobretudo num país como o Brasil.
Ou seja, o governo passou a promover a redução do fluxo de dinheiro na economia, cortando investimentos e aumentando a taxa de juros e os impostos. O resultado esperado é uma recessão que acabe com a inflação, e quem sabe com o próprio país.
Dilma deve ter imaginado que a escolha de um ministro com esse perfil acalmaria as oposições. No entanto, as medidas de austeridade acabaram desagradando a todos, e as pesquisas de opinião comprovam isso.
De um lado, as oposições passaram a acusar Dilma de estelionato eleitoral por estar aplicando as medidas de ajuste que eles propagavam como sendo as necessárias durante a campanha eleitoral. De outro, a base governista se sentiu traída e passou a contestar o próprio governo com perfil desfigurado pela política econômica do ministro Levy.
O Brasil de 2015 continua sendo o mesmo de 2014. O mercado de consumo é enorme, os problemas sociais não se comparam com o que a Europa e até países da América Latina estão passando. Houve muito avanço na área de infra-estrutura e no desenvolvimento social. Portanto, o Brasil deveria ser um excelente lugar para se investir.
No entanto, se nós mesmos dizemos todos os dias o contrário, os investidores estrangeiros têm motivos para desconfiar. Essa crise de auto-estima deriva da revolta dos que não aceitaram até agora o resultado das urnas.
Além da crise fiscal e inflacionária, o governo enfrenta várias outras. A começar pela crise hídrica, que compromete não somente o abastecimento humano, animal e das lavouras, como todo o sistema de geração de energia e boa parte da produção que é escoada por cabotagem. Isso gera um prejuízo financeiro enorme para empresas, além do desemprego no setor, e termina por encarecer o preço da energia que alimenta a inflação.
Outra grande crise é a ética. A operação lava-jato revela as profundezas do patrimonialismo no país, que é histórico e endêmico em todos os níveis. Mas, neste caso, o governo federal merece todos os créditos por não interferir, e o país demonstra com isso um amadurecimento institucional, mesmo que de forma pontual.
Pela primeira vez, pessoas estão sendo presas e processadas por corrupção. No entanto, as empreiteiras envolvidas nas grandes obras de infra-estrutura estão impedidas de continuar o trabalho e isso deixa o governo de mãos atadas para movimentar a economia. As empresas não recebem, demitem, e entram numa espiral negativa.
Existem grandes refinarias que estão quase prontas, mas que as obras foram paralisadas e milhares de pessoas foram demitidas devido à operação lava-jato. Com isso, outros países ganharam mais tempo para vender os derivados de petróleo que nós mesmos poderíamos estar produzindo, gerando emprego, renda e riqueza.
Qualquer leigo sabe que a economia brasileira depende da contratação de grandes obras e serviços por parte do Estado em todos os setores. Ou seja, o prejuízo pela paralisação é de milhares de empregos e consumidores que deixam de comprar e isso atinge todos os setores da cadeia produtiva, de serviços a produção de bens, e causa uma brutal queda de arrecadação de impostos.
Com o fechamento dos cofres do governo, a economia entra em recessão. A conseqüência é a queda na arrecadação e um círculo vicioso se reproduz.
Além desses problemas, ainda tem o Congresso Nacional cada vez mais ‘autônomo’, ou rebelde, como se estivesse numa espécie de crise de abstinência de propinas e mensalões. Afinal, a fonte secou. E, infelizmente, os nossos parlamentares (e políticos em geral) não têm projetos para o país ou alguma utopia para defender. O que move os políticos no Brasil são os interesses patrimonialistas que estão muito distantes dos interesses da sociedade como um todo. Brasília parece ser um país distante do Brasil, ou quem sabe um outro planeta.
Para completar, Dilma vai ter que enfrentar a Controladoria Geral da União (CGU) e a aprovação das suas contas de governo no Congresso Nacional, acuada e fragilizada. As oposições estão ganhando a batalha e a estratégia de ‘sangrar’ até cair está funcionando.
Afinal, quando ligamos a televisão o que vemos é o fim do mundo. O Brasil quebrou. O Brasil está no fundo do poço. Não há notícia boa. Quando há, os jornalistas ficam até constrangidos, como se estivessem contribuindo para ajudar o governo do PT. Quando a manchete estampa que o Brasil alcançou mais um recorde negativo podemos ouvir os gritos no final da rua.
Afinal, tudo se justifica para destituir o governo dos ‘vermelhos’ e substituí-lo pelo ‘verde e amarelo’. A intolerância chegou ao nível mais baixo que até a intervenção militar faz parte das reivindicações.
As oposições perderam as eleições, mas conseguiram polarizar o país. Com um cabedal de quase 50% do eleitorado, não querem permitir que o governo seja bem sucedido, mesmo que em detrimento da maioria da população mais carente que sofre as conseqüências de uma crise alimentada pelas elites políticas que pouco se importam com o povo brasileiro.
Quanto aos comentaristas dos principais jornais e revistas, esses atuam como profetas do apocalipse. A pauta é o caos e a expectativa é a queda do governo. A palavra de ordem é extirpar o PT do poder.
O governo Dilma paga o preço pela falta de planejamento do seu primeiro governo, e pela manutenção da incompetência institucionalizada de carteirinha em vários setores. Sem rumo e acuada, a última alternativa é buscar apoio nas velhas estruturas do sistema político do toma-lá-da-cá. É o fim. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Brasil em crise. Existe um país para além do Sudeste?

É sabido que a edição do noticiário ‘nacional’ no Brasil é produzida na região Sudeste, em São Paulo e Rio de Janeiro, por razões que são historicamente dadas. No entanto, este fato provoca cada vez mais um hiato entre a realidade relatada pela grande mídia e a vida do cidadão comum nas diferentes regiões do país. Esse fenômeno sempre existiu, mas com as novas mídias as suas contradições ficam mais expostas.
A realidade do paulista não é a mesma do paraibano, ou do goiano e assim por diante. A crise que se vive lá não é a crise que se vive aqui e vice-versa. O Brasil é um país continental que deixou de concentrar todo o seu desenvolvimento em torno de São Paulo, apesar de ainda ser o estado economicamente mais importante. Muitas empresas e indústrias estão se ‘deslocando’ para outras regiões do país em busca de melhor infraestrutura, logística, novos mercados e, por que não dizer, qualidade de vida para os seus empregados produzirem mais e melhor.
No entanto, essa nova realidade de uma economia mais descentralizada e heterogênea não aparece no noticiário ‘nacional’ de forma clara e perceptível. As informações gravitam em torno da região Sudeste, como representante de um país inteiro, que concentra o poder econômico, político e da informação.
A crise que atinge a região Sudeste é o resultado da perda de empresas e empregos que antes confluíam naturalmente para lá. Entretanto, existem regiões no país que recebem novas empresas e que não conhecem a mesma crise dos paulistas, ou até não conhecem crise alguma. Muito pelo contrário.
Mas, todos os dias são disseminados no noticiário ‘nacional’ que o país como um todo está numa grave crise, como se todos fôssemos paulistas ou cariocas. Mas, aí alguém pode dizer que os dados macroeconômicos demonstram efetivamente a existência de uma crise no país como um todo. A crise hídrica, por exemplo, é um fenômeno que não se restringe mais apenas ao Nordeste.
É sabido que a economia não é uma ciência exata e sim aplicada, e que depende de expectativas positivas para produzir cenários futuros no presente. Mas, como ter um cenário futuro promissor com uma perspectiva tão negativa e enviesada produzida por quem está no ‘olho do furacão’ de uma crise?  
No noticiário ‘nacional’, a culpa de todos os problemas sempre é dos governos sem que seja questionada a falta de criatividade do mercado, dos empresários e dos próprios governantes dos estados para buscar alternativas ou medidas que alavanquem o desenvolvimento. Nós, brasileiros, estamos sempre em busca de um culpado, de um salvador da pátria e de um chefe que diga o que fazer. Enquanto não se sabe, cada um se vira como pode sempre querendo levar vantagem em tudo, mesmo que os interesses individuais se sobreponham aos interesses coletivos, ou que os interesses patrimonialistas de grupos se sobreponham aos interesses da sociedade.
Os gestores dos estados e municípios tendem a culpar o governo central que por sua vez tende a culpar a conjuntura internacional. Enquanto isso, os governantes desviam os recursos públicos, e os empresários ‘deslocam’ o capital para outras regiões, outras aplicações financeiras e até mesmo outros países para garantir, cada um, o seu pirão primeiro. Então, de que crise nós estamos realmente falando?  

quarta-feira, 11 de março de 2015

Eleições 2014: O terceiro turno e os profetas do apocalipse!

A presidenta Dilma tomou posse para o seu segundo mandato em janeiro de 2015 mas a campanha eleitoral de 2014 não acabou. Estamos vivendo um terceiro turno fomentado por previsões catastróficas na economia do país e alimentado pela grande mídia e redes sociais, que propagam uma crise maior do que existe na realidade. O leitmotiv é o Partido dos Trabalhadores, o PT, e a famosa ‘operação lava-jato’ na Petrobrás.
O discurso de oposição do quanto pior melhor nunca esteve tanto na moda. Na mídia, nas redes sociais e nas ruas o governo Dilma está bastante fragilizado, apesar do país viver uma normalidade institucional democrática.
No entanto, no final de cada dia, depois de ler os jornais, portais e redes sociais a sensação que o cidadão comum tem é de que o Brasil vai acabar amanhã. A situação é caótica.
A impressão que se tem é de que as oposições estão torcendo para que dê errado, pois somente assim o PT sai do poder. O cenário é o pior possível.
Tanto que é difícil acreditar que o fluxo cambial, diferença entre a entrada e a saída de dólares do país, iniciou o mês de março positivo em US$ 3,019 bilhões. O saldo é relativo à primeira semana do mês. Com o resultado, o fluxo acumulado em 2015 ficou positivo em US$ 5,78 bilhões. Os dados foram divulgados pelo Banco Central (BC). O fluxo positivo significa que a entrada da moeda norte-americana no Brasil superou a saída. O saldo positivo semanal seguiu os movimentos do segmento financeiro (investimentos em títulos, remessas de lucros e dividendos ao exterior e investimentos estrangeiros diretos) e comercial (operações de câmbio relacionadas a exportações e importações). O fluxo das transações financeiras ficou positivo em US$ 1,972 bilhão. Já o saldo comercial registrou resultado positivo de US$ 1,048 bilhão.
É difícil acreditar nessa notícia! Esse movimento da economia estaria na contramão das afirmações de que o Brasil quebrou, está em recessão etc. Afinal, o desemprego estaria aumentando e a inflação chegando a patamares absurdos, fora de controle.
A sociedade é bombardeada diariamente por notícias negativas que derrubam a autoestima do país. A economia em crise, a fragilidade do Judiciário, a corrupção em todas as áreas e a violência traçam um destino nada animador para o futuro do país.
O PT é o partido que está 12 anos no poder e, portanto, sua imagem está diretamente vinculada com as mazelas sociais e com os escândalos de corrupção. Parte da sociedade não quer saber se nos últimos anos o país teve a maior redução de desigualdades sociais da história, se a classe média aumentou, ou se mais pessoas tiveram acesso aos bens de consumo, moradia, educação e saúde.
O que importa é que, no geral, tudo funciona muito mal e alguns atribuem a culpa de tudo exclusivamente ao PT. É verdade que o povo brasileiro paga muito imposto e tem pouco retorno dos governos. O resultado é uma insatisfação crescente que alimenta o ódio e a discriminação.
O PT está estigmatizado pela corrupção praticada por seus representantes e dificilmente vai se livrar disso. O único partido político de massa do país tende a definhar e pode até desaparecer. O povo é quem vai decidir.
É evidente que o governo Dilma está de ‘aviso prévio’ e vai ter que trabalhar muito para reverter o quadro desfavorável. Mas, a política é como uma nuvem que muda muito rápido e tudo é possível.
A presidenta Dilma já passou por uma situação semelhante em 2013 e conseguiu reverter o quadro negativo. A tendência é de que o movimento que se observa hoje pelo país seja de ordem conjuntural e, portanto, possível de ser contornado.
No entanto, se as previsões pessimistas se confirmarem, ou seja, se a crise hídrica continuar, a economia entrar em recessão e a crise política se alastrar, o governo pode agonizar e preparar o terreno para a alternância do poder. Portanto, para as oposições, quanto pior (para o país) melhor (para os políticos que querem tomar o poder).

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Eleições 2014: que falta faz o Eduardo Campos.

As eleições de 2014 são as mais acirradas dos últimos tempos. Depois de três disputas com o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) conseguiu, finalmente, equilibrar o jogo. No entanto, isso se dá muito mais pela conjuntura política e econômica do que pela capacidade mobilizadora do PSDB e de seu candidato.
Aécio Neves (PSDB) teve doze anos para se preparar para ser candidato à presidente do Brasil. Ele foi governador de Minas Gerais por oito anos e senador da República por quatro. No entanto, quando foi governador perdeu a oportunidade de se diferenciar e acumular resultados na gestão que o diferenciasse substancialmente e o credenciasse para ser presidente.
A gestão do governador Aécio em Minas Gerais tem muito mais frases de efeito do que obras, programas e ações de governo para mostrar. Se o candidato fosse Eduardo Campos (PSB), a história seria diferente, pois, nesse quesito o ex-governador de Pernambuco tinha muito para apresentar.
Aécio passou a maior parte do primeiro turno da eleição surfando na insatisfação popular com os escândalos de corrupção que envolvem o partido da presidenta Dilma. Ele deixou de lado a apresentação de um programa de governo (que só foi divulgado na última semana do primeiro turno) e de resultados concretos de políticas quando foi governador de Minas Gerais.
A campanha de Campos, por exemplo, já explorava experiências inovadoras que ele implantou na área de segurança e educação, além de obras de infraestrutura na saúde e na economia do estado. Pernambuco chegou a crescer a uma taxa maior do que a China em determinado momento com a instalação de um polo naval e a ampliação de polo petroquímico e industrial.
No governo Aécio, a história é diferente. Ele não tem obras para mostrar, a economia de Minas não cresceu, a sua dívida aumentou e os escândalos se sucederam. O caso mais grave é o mensalão que envolveu o seu vice-governador no primeiro mandato, Clésio Andrade, que se elegeu senador mas teve que renunciar para não ser cassado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Com a renúncia o seu processo voltou para a Justiça comum de Minas Gerais.
Como alguém pode querer ser presidente com esse histórico de governador? Aécio apostou no desespero e na revolta das pessoas com os escândalos de corrupção. Será que um gestor com esse perfil tem bagagem para encarnar as mudanças que o Brasil precisa continuar fazendo?
A propaganda eleitoral e os debates permitem expor os candidatos com suas potencialidades e fragilidades. No caso de Aécio, as pesquisas indicam que depois de um momento ‘salvador da pátria’ as pessoas começaram a perceber que se trata mais de um ‘fake’ do que uma perspectiva real de mudança. Pelo sim ou pelo não a tendência é que a maioria prefira o certo ao duvidoso.
O PT por sua vez, ou aprende a lição ou está fora do páreo na próxima. A sociedade já demonstrou a sua revolta e o próximo governo terá que ter critérios mais republicanos e menos partidários para ocupar os cargos públicos e nas empresas estatais. Do contrário, a população já deu um ‘aviso prévio’.
Ou seja, mesmo reconhecendo todo o avanço realizado pelos governos Lula e Dilma, o PT deve ganhar mais esta eleição muito mais pela ausência de uma oposição qualificada do que pelos seus próprios méritos. Os escândalos de corrupção deixaram sequelas gravíssimas. No entanto, não há uma liderança no horizonte com o perfil de Eduardo Campos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eleições 2014: o fenômeno da ‘bolha política’ Aécio Neves.

O candidato Aécio Neves (PSDB) está surfando numa onda que, segundo pesquisas de intenção de voto, não pára de crescer. Se o segundo turno for considerado a continuação do primeiro, Aécio ultrapassou Dilma (PT) e registrou um cruzamento no gráfico de intenções de voto. Quando isso acontece é quase irreversível, a não ser que aconteça um fato novo determinante.
Quando Marina (Rede) ultrapassou Dilma nas intenções de voto no primeiro turno, o PT fez uma campanha de desconstrução da sua candidatura que a levou ao terceiro lugar. No entanto, consideradas as especificidades de cada processo, é muito difícil acontecer um ‘duplo cruzamento’.
Se o segundo turno for considerado como uma nova eleição, e a referência seja a primeira pesquisa na qual Aécio aparece em primeiro, ainda há esperança para Dilma. Novas pesquisas vão mostrar se a tendência permanece a mesma ou se Dilma pode reagir. Se isso acontecer e Dilma ultrapassar o Aécio o cenário se inverte.
Mas, é possível considerar o segundo turno uma nova eleição? A resposta é sim. Em princípio o jogo zerou e são apenas dois candidatos com o mesmo tempo no guia eleitoral. Os debates e a quantidade de indecisos podem fazer a diferença, além do xadrez dos grupos políticos nos estados da federação.
O Aécio está sendo favorecido pelo antipetismo que é um fenômeno muito forte na sociedade. Existe uma geração de pessoas que nunca vivenciou outro governo. O PT é identificado com o stablishement e as mazelas sociais, apesar dos avanços que muitos não conseguem considerar.
A corrupção é um motivo muito forte para querer a alternância de poder e serve de justificativa para votar no Aécio. Foi assim também com Collor, cuja justificativa era caçar os marajás do serviço público.
Agora, o Aécio se apresenta como o ‘caçador’ de corruptos. O ‘salvador da pátria’. Uma proposta na contramão da chamada ‘nova política’, pois o país não precisa de um ‘salvador’ e sim de um projeto alternativo de poder.
Aécio é o candidato de uma ‘mudança’ que ninguém sabe ainda qual é. A única certeza é que não será o PT. O candidato conseguiu a façanha de fazer uma campanha para presidente sem apresentar propostas concretas e chegar ao segundo turno.
Mas, é possível seguir algumas pistas e agora no segundo turno ele terá necessariamente que apresentar alguma proposta. Caso eleito, o seu ministro da economia será o Armínio Fraga que já foi presidente do Banco Central do governo Fernando Henrique (PSDB).
Com essa escolha temos a certeza de que se trata de uma proposta de mudança nada inovadora. Afinal, Fraga já foi mal sucedido uma vez.
Segundo ele, o Brasil está num carro rumo ao abismo e temos duas alternativas: ou pulamos do carro ou fazemos a volta. Isso lembra uma frase criada pelo regime militar: ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. Como solução para a economia carece de objetividade.
A sociedade brasileira está numa situação difícil. De um lado, um governo atolado em denúncias de corrupção. De outro, um grupo que quando esteve no poder jogava toda a corrupção para debaixo do tapete.
O Aécio não diz o que vai fazer de forma objetiva porque talvez se disser as pessoas não votem mais nele. Ele aproveita o sentimento de repúdio e de revolta da sociedade para pedir uma espécie de ‘cheque em branco’ ou ‘procuração’ com o discurso de mudança. O resultado disso pode ser um grande estelionato eleitoral como foi o Collor.
A alternância de poder é salutar para a democracia. No entanto, é preciso que a sociedade saiba o que será feito. A falta de transparência de Aécio já é um mau presságio.
O Aécio se apresenta com uma estética convincente para o país, bastante diferente daquele que os mineiros conhecem. Resta saber se o PT vai ter a mesma eficiência para desconstruir a sua imagem como fez com a Marina.
A desconstrução de Marina acabou levando-a para outro campo político e apesar do seu discurso da ‘nova política’ declarou apoio ao Aécio Neves. Na realidade, a sociedade vai ter que escolher entre dois modelos: um governo que pratica uma política econômica heterodoxa de desenvolvimento autônomo com distribuição de renda, ou um governo liberal que tende a implantar uma política ortodoxa de desenvolvimento associado em detrimento do social.
O PSDB conseguiu criar uma ‘bolha política’ chamada Aécio Neves. Só resta saber se ela vai estourar no segundo turno ou depois da eleição. Com a palavra o eleitor.