sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eleições 2014: pesquisa eleitoral e voto na Paraíba.

Se considerarmos as pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora na Paraíba, a eleição para governador já estaria definida em favor de Cassio Cunha Lima (PSDB). O cenário seria favorável ao candidato em todas as regiões do Estado com uma margem tão ampla que os blogs e portais destacam a possibilidade de vitória já no primeiro turno.
Recentemente, a Paraíba teve um fenômeno parecido. Em 2010, José Maranhão (PMDB), então candidato a governador, liderava todas as pesquisas com ampla margem de votos. Os principais assessores do então candidato já falavam em comprar o terno da posse.
O que ficou comprovado depois da abertura das urnas é que as pesquisas não correspondiam à realidade. Os institutos de pesquisa se esquivaram afirmando que as pesquisas representavam um momento e que o eleitor pode mudar de opinião na última hora.
No entanto, o que parece ser uma mudança de opinião do eleitor pode ser uma manipulação flagrante de dados para tentar criar um cenário que não existe no imaginário do eleitorado. Muitos estudos apontam para o fato de que o eleitor tende a votar no candidato com perspectiva de vitória. Esse argumento sustenta uma estratégia eleitoral arriscada de manipulação de pesquisas eleitorais que segue a lógica do ‘se colar, colou’.
As pesquisas eleitorais não podem ser analisadas apenas pelos números que apresentam e também não podem ser o único referencial para entender o comportamento eleitoral. Quem faz análise política precisa fazer uma análise qualitativa da conjuntura para tentar compreender de que forma os interesses da sociedade vão se expressar nas urnas.
A estratégia do PSDB nas eleições de 2014 é muito parecida com a do PMDB de 2010. Você cria um cenário com pesquisas eleitorais que, mesmo questionadas e reprovadas pela Justiça Eleitoral, cumprem o papel de criar uma realidade desejada por um grupo político. Ou seja, a informação que o cidadão tem e reproduz nas discussões de mesa de bar, em casa e com os amigos é o resultado das pesquisas.
Essa estratégia política tem um poder muito grande de disseminar uma informação com ‘caráter’ científico. Ou seja, o eleitor tende a aceitar a pesquisa como instrumento de verificação de intenção de voto e identificá-la como ‘verdadeira’ mesmo que o seu voto seja diferente.
A pesquisa eleitoral se transformou na Paraíba, assim como em outros lugares no país, numa ferramenta de manipulação da opinião pública. No entanto, na Paraíba, essa estratégia não funcionou em eleições anteriores.
Para acreditar que essa estratégia funcione é preciso considerar que a opinião pública é manipulável. Mas, o eleitor de hoje não é mais o mesmo de dez ou vinte anos atrás. Hoje, o eleitor está cada vez mais pragmático e tende a apoiar os gestores que realizam obras e melhoram a sua condição de vida e a dos seus filhos.
Nesse sentido, é preciso procurar entender a lógica dominante no eleitorado em função dos benefícios que ele tem conquistado. Afinal, quem votaria no governador Ricardo Coutinho (PSB) candidato à reeleição? Essa é a pergunta que deve ser feita.
As pessoas que votam no governador foram beneficiadas de alguma forma pelas ações do governo, seja pelo Orçamento Democrático, o Empreender Paraíba, o Pacto pelo Desenvolvimento, com o transporte escolar, as estradas, a água na torneira, hospitais, escolas etc. e até mesmo o emprego no Estado. Afinal, mais de dez mil concursados foram convocados e as categorias receberam reajuste salarial todos os anos, inclusive, no caso da educação, o 14º salário. Além disso, os movimentos sociais no campo e na cidade têm uma aproximação com as ações do governo estadual, sem contar as famílias beneficiadas pelo bolsa-família. Qual seria o percentual do conjunto dessa população no eleitorado paraibano?
Quando se analisa os dados de investimentos do governo do Estado da ordem de sete bilhões de reais, isso representa um conjunto de obras e serviços que estão gerando emprego e renda para muitas famílias que, por sua vez, devem estar satisfeitas com a oportunidade gerada. As pessoas que são beneficiadas diretamente tendem a repercutir positivamente junto aos seus familiares, amigos etc.
Do ponto de vista da análise qualitativa, a categoria mais insatisfeita com o governo é a dos políticos e familiares que perderam muitas benesses que recebiam do Estado. A partir de então, com os interesses pessoais atingidos, uma onda de insatisfação de um segmento importante na formação da opinião pública se difundiu.
Mas a pergunta que fica é a seguinte: será que os interesses contrariados de uma minoria representa os interesses da maioria da população? Será que a população vai apoiar a iniciativa de um governo que investe em obras, serviços e ações, ou vai ficar do lado da minoria contrariada? Com a palavra o eleitor.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Eleições 2014: o legado de Eduardo Campos (PSB).

A morte de Eduardo Campos (PSB) causou um ‘tsunami’ na disputa eleitoral para presidente do Brasil. O impacto da sua morte, com a comoção nacional e a repercussão internacional, não deixa dúvida do potencial de sua candidatura, cuja fase principal iria começar com o horário eleitoral (no rádio e televisão) e com os debates. 
Com um discurso coerente e decidido Campos se credenciava para ser uma ‘alternativa’ desejada pela sociedade brasileira: mudar de governo sem mudar de campo político.
O sentimento é de que a morte chegou na hora errada para a pessoa errada. Mas, de uma tragédia humana e de uma lástima para a política brasileira é preciso tirar alguma lição. A sua morte não pode ter sido em vão. Acreditar que somente ele poderia ser o protagonista desse processo seria acreditar no ‘salvador da pátria’, e esse não parecia ser o propósito de Eduardo Campos.
O projeto político até então encabeçado por ele tem que seguir em frente, mesmo que não seja com o seu principal protagonista. E a pessoa mais indicada para dar continuidade é a Marina Silva (PSB/Rede de Sustentabilidade). E esse parece ser o legado de Campos.
Marina não é o mesmo que Eduardo, assim como Eduardo não era o mesmo que Marina. O encontro dos dois foi o maior fato político da campanha eleitoral até então, superado apenas pela morte trágica de Campos. A partir de agora, a candidatura de Marina passa a ser o fato político mais importante da campanha presidencial. Resta saber o impacto que isso vai provocar.
Marina demonstrou grande habilidade política ao se filiar ao PSB de Campos levando consigo a Rede. Ela sabia que não podia ficar de fora do embate político e identificou no projeto de Campos um porto seguro para embarcar na disputa eleitoral.
Marina foi uma estrategista habilidosa e surpreendeu os políticos e analistas mais experientes. Campos, por sua vez, se sentiu fortalecido e legitimado como alternativa política.
Quando resolveu apoiar Campos, Marina, que teve quase vinte milhões de votos na última eleição, estava em segundo lugar nas pesquisas e teve o pedido de registro do seu partido negado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Na ocasião da sua filiação ao PSB ela chegou a afirmar que a Rede de Sustentabilidade era o primeiro partido político na clandestinidade depois da Constituição de 1988.
Marina chegou para somar a candidatura de Eduardo Campos, mas isso não se traduziu em intenções de voto. Campos tinha em torno de 8% nas pesquisas, o que era bastante, considerando o fato de que era desconhecido da maioria da população brasileira.
Marina, ao contrário, já foi senadora da República, ministra do meio ambiente do governo Lula e candidata à presidente do Brasil. Além disso, ela criou vários fatos políticos com repercussão na mídia que a projetaram nacionalmente a partir do Congresso Nacional.
Nas eleições de 2010, Marina tirou proveito do chamado ‘voto de protesto’ dos que não queriam ver a eleição ser resolvida no primeiro turno devido à ausência de debate político. No entanto, ela não conseguiu evitar a polarização PT x PSDB no segundo turno.
A proposta de Eduardo Campos era ser a terceira via, mas não como ‘voto de protesto’ e sim como ‘opção de voto’ para mudar o Brasil sem mudar de campo político. O desafio de Marina será conquistar esse patamar e não ser apenas uma expressão do ‘voto de protesto’ e sim uma alternativa real de poder.
No entanto, a candidatura de Marina já começa com um problema. O candidato à vice é do Sul e um ilustre desconhecido no Nordeste e do restante do país. Será um desafio explicar a sua escolha.
O PSB perdeu a chance de reunir o ‘racional’ com o ‘emocional’ na campanha. A esposa de Eduardo Campos na chapa como vice seria a representante ideal do Nordeste que falta para Marina, além de manter viva a lembrança do marido.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eleições 2014: a política e o discurso ‘sustentável’.

As sustentabilidade é um tema que não diz respeito apenas ao chamado ‘meio ambiente’. Na política, também, o discurso e a prática do político tem quer ser sustentável. Do contrário, não deve ser eleito.
É possível classificar os políticos de sustentáveis e insustentáveis. O primeiro consegue associar a sua prática ao seu discurso. O segundo não.  
O discurso político tem que estar vinculado à prática do político. Falar uma coisa e fazer outra pode ser interpretado pelo eleitor como ‘poluição discursiva’, ou seja, insustentável.
No entanto, muitos políticos ainda tentam reeditar velhos discursos ‘poluidores de mentes’ que não se sustentam. E a população, por sua vez, se identifica cada vez mais com o discurso político sustentável que encarna a novidade na política de fazer o que diz.
Nos tempos atuais, o tema da sustentabilidade faz parte de todo tipo de agenda: produção de bens, mobilidade urbana, educação, saúde, agricultura, esporte, acessibilidade etc. No entanto, muitos políticos falam de sustentabilidade e não praticam.
A sociedade tem uma dinâmica diferenciada da política. Os políticos, em geral, perdem o compasso e se distanciam da sociedade.
Ainda existe muito político com ‘discurso fácil’ de ‘terra arrasada’ que não se preocupa com a sustentabilidade do próprio discurso. A crítica genérica e generalizante muitas vezes é um ‘tiro no pé’, pois o próprio eleitor/usuário/cidadão não reconhece naquela a sua realidade. Essa busca ‘predatória’ pelo voto pode afastar o eleitor e provocar um impacto negativo para o político.
O eleitor está mais interessado no político que se compromete com propostas que cuidem das pessoas, da natureza, mas que tenha capacidade de fazer o que diz. No entanto, muitos políticos ainda não fazem essa ‘leitura’ da sociedade.
Muitos apostam na memória curta do eleitor e na possibilidade de comprar o voto dos mais humildes aos mais ricos, de um modo ou de outro, numa perspectiva ‘predatória’. Mas, a sociedade do século 21 tem parâmetros e exigências que, no geral, apontam para uma mudança no comportamento e no nível de exigência e expectativa do eleitorado.
No período eleitoral sempre surge um candidato com o velho discurso de ‘salvador da pátria’, daquele que vai resolver todos os problemas do mundo. O ‘salvador’ sempre tem um discurso focado no lado emocional e a sua proposta é representar os oprimidos, os perseguidos, e defendê-los. É o representante do bem que vai livrar a sociedade do mal.
No entanto, essa estratégia messiânica é equivocada e não tem sustentabilidade, pois o discurso tem curta duração. Quando surge como novidade, com uma plataforma transformadora, o candidato ‘predador de votos’ consegue convencer o eleitorado e representar o ‘novo’ na política. A população acredita a acaba dando um voto de confiança. Foi assim com Collor, por exemplo, e muitos políticos pelo país afora.
Não é preciso muito esforço para convencer a população que quer mudança. Mas, aí vem o governo do político e com ele o confronto entre o discurso e a prática revela as deficiências e as potencialidades de cada um. No contexto atual, a ausência de novidade é insustentável.
O resultado pode ser um político com ‘discurso novo’ governando com ‘velhas práticas’. O balanço que se faz é de que essa estratégia geralmente funciona para o político e seu grupo, mas não para a sociedade.
O discurso do político tem que ser sustentável, tem que ser emocional, mas, sobretudo, racional. O político tem que prestar contas dos seus atos enquanto gestor público. É sua obrigação apresentar dados, números, resultados concretos de suas experiências como gestor público. As suas ações têm que ser sustentáveis.
No século 21, o político não tem mais como viver de discurso ‘fácil’. A estratégia de marketing que se apoia apenas no discurso messiânico emocional é equivocada e deficiente.
Mas, quando o político só tem isso, o marqueteiro não pode fazer milagre, mesmo que seja para o ‘salvador da pátria’. Isso é o que define a falta de sustentabilidade na política e o resultado previsível deve ser a derrota eleitoral.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eleições 2014: o ‘velho’ discurso do ‘novo’.

Existe uma fragilidade flagrante no discurso dos candidatos de oposição ao governo do Estado da Paraíba. Todos tentam encarnar o papel de uma ‘nova’ alternativa. No entanto, caracterizar Cássio (PSDB) e Vital (PMDB) de ‘novo’ é uma missão quase impossível para qualquer marqueteiro que se preze. Parece mais uma gozação com o eleitor.
O discurso do principal candidato de oposição é batido, não se recicla. Parece que Cássio parou no tempo, ou mora em outro lugar. No mínimo, perdeu um link com a realidade do Estado, assim como boa parte da chamada ‘classe’ política. Ele ainda utiliza chavões ultrapassados que desconsideram a conjuntura política, social, econômica e cultural da população. A Paraíba de 2014 não é a mesma de 2002.
Hoje, muitas cidades de pequeno e médio porte do interior da Paraíba apresentam níveis consideráveis de desenvolvimento em todas as áreas. A população está mais informada, sintonizada com o que está acontecendo não apenas na sua cidade, mas em todo o Estado e no país.
Mesmo assim, é notório o alto grau de voluntarismo no discurso dos candidatos de oposição. Parece com um time sem técnico e que não treina. Entra para jogar sem fazer o dever de casa achando que vai agradar ao público, pois no terreno do discurso ‘fácil’ é ‘craque’. Mas, atenção, os aplausos podem se tornar vaia em pouco tempo, e uma derrota pode virar uma goleada.
Esse tipo de atitude desconsidera a capacidade do eleitor de compreender a realidade dos fatos. O tempo do discurso fácil passou. O eleitorado tem outro perfil; não há como desconsiderar a capacidade crítica do eleitor. Apesar das lacunas dos estudos sobre o eleitorado, é senso comum que ele está cada vez mais exigente e qualificado.
Enquanto isso, a oposição na Paraíba sobrevive de críticas às ações de um governo que tem mais de 70% de aprovação da população. Ou seja, ou os políticos não entendem o perfil do eleitorado, ou querem impor um perfil desejado sem avaliar as consequências.
Numa democracia, a oposição é fundamental. Mas, é preciso ter conteúdo e fazer o dever de casa.
Na contramão, a oposição na Paraíba assume um discurso de maioria quando na realidade é minoria. Recentemente, um grupo político da Paraíba experimentou essa estratégia de marketing construída na realidade daqueles que falam como se fosse a realidade daqueles que escutam. O resultado não podia ser diferente, ou seja, foi a derrota.
É notório que os políticos no Brasil, e na Paraíba, estão distantes dos interesses da população de um modo geral. Ao invés de serem pautados pelos interesses da população, os políticos tentam pautar a ação da população de acordo com os seus interesses. E é isso que está acontecendo na Paraíba hoje.
O interesse em aproveitar o momento eleitoral para captar recursos e eleger os seus pares, muitas vezes familiares, está acima de qualquer interesse da população. Pior, está muito distante do interesse da população. E o discurso mais fácil é atacar tudo que se faz, mesmo que em benefício dos mais carentes. É uma luta de (o) posição, do poder pelo poder.
Nesse contexto, a saúde, a educação, a mobilidade, a segurança e as políticas sociais são os principais temas. E o discurso mais fácil é o da crítica da ‘terra arrasada’ sem apresentar dados ou apontar as soluções. Da boca dos políticos, o interesse do Estado, do povo, é o que mais se ouve. Mas, o interesse do político não se discute, e não está na pauta. Afinal, o político está se ‘sacrificando’ para melhorar a vida da população, e blá, blá, blá.
Na realidade, não existe fato novo que abale a imagem construída de um governo de resultado, por mais que o discurso da oposição tente. Ou seja, nos últimos anos, a Paraíba avançou em várias áreas com muitas obras e serviços que nunca tinham chegado à população. Tudo dentro dos limites da Paraíba, um Estado pequeno e pobre. E isso a sociedade tem capacidade de avaliar. Não considerar isso é querer tapar o sol com a peneira.
É verdade que nem todos os problemas foram resolvidos, e nem poderiam ser em apenas quatro anos. Alguns têm séculos de existência e seria exigir demais. O próprio governo tem seus limites, pois, convive com processos inovadores e tradicionais que impulsionam e atravancam, numa dialética historicamente construída.
As forças conservadoras resistem às mudanças e o gestor tem que lidar com isso. O próprio gestor é influenciado pela cultura conservadora e inflexível.
Mas, o Estado, o gestor, os políticos, todos precisam mudar. A dinâmica da sociedade não é mais a mesma. A finalidade da política não pode ser a própria política ou o interesse dos políticos.  

terça-feira, 1 de julho de 2014

Eleições 2014: só falta combinar com o povo!

O processo eleitoral de 2014 na Paraíba é um caso interessante para o estudo de semiólogos. Muitas teses podem ser produzidas através da análise do discurso dos atores políticos.
Quais são as motivações, as intencionalidades e os interesses que movem os políticos a cada eleição? O discurso do político quase sempre escamoteia os interesses da pessoa. No entanto, um especialista pode tentar estabelecer uma série de correlações que ajudam a identificar as intenções que estão por trás do discurso. O período eleitoral é um momento privilegiado de efervescência dos interesses não revelados.
Existe um fenômeno no cenário político paraibano que define o processo eleitoral de 2014. O estado da Paraíba está vivenciando um hiato histórico entre o poder Executivo e o poder Legislativo. De um lado, o governador, e de outro, os deputados estaduais, federais e senadores.
Desde o início do seu mandato, o governador Ricardo Coutinho (PSB) não ‘prestigiou’ os políticos parlamentares paraibanos da forma como eles estavam acostumados. Historicamente, os parlamentares sempre foram tratados como intermediários dos prefeitos municipais e receberam a devida atenção do poder Executivo, no melhor estilo patrimonialista.
No entanto, o governo de RC passou a adotar critérios menos pessoais e mais ‘republicanos’ (termo muito utilizado pelo governador) para atender os pleitos dos prefeitos e demais políticos. Foi a primeira vez, salvo engano, que um governador confronta severamente os interesses dos parlamentares que nem sempre são revelados, ou reveláveis.
O resultado é a revolta geral dos ‘representantes do povo’, eleitos de forma legitima através do voto livre e soberano. Diariamente, a sociedade é brindada com discursos que se revezam na tribuna e nos meios de comunicação para tecer críticas ao governador, quase todas de ordem pessoal. É comum ouvir o governador ser chamado de ditador, intransigente, arrogante, chato, etc.
Desde o início do seu governo, RC não se importou com os políticos parlamentares. Ele preferiu investir em editais para que os prefeitos apresentassem projetos para melhorar a qualidade de vida na área de saúde e educação dos municípios. O programa Pacto Social levou muitos investimentos para vários municípios e produziu resultado concreto que as pessoas, lá nas cidades, sabem.
E para o desespero dos políticos, o governo estadual nunca levou tanto serviço e obras para o interior do Estado como está levando agora. Mas, ao invés de comemorar, os políticos parlamentares criticam, pois não conseguem se beneficiar com as realizações do governo. Isso parece ser uma contradição, mas, na realidade, é a lógica da política paraibana.
Com a realização de muitas obras e serviços que impactam a vida das pessoas nos municípios, o governador conseguiu atrair o apoio de muitos prefeitos, inclusive daqueles que são da base dos deputados de oposição. Isso fez com que o governador conseguisse penetrar em muitos ‘redutos eleitorais’ de políticos adversários.
Tradicionalmente, todo governador que tomava posse na Paraíba cuidava logo de construir a sua maioria na Assembleia Legislativa, no Tribunal de Contas e no Poder Judiciário. Depois de conquistar esses espaços no melhor estilo ‘Hugo Chaves’, tudo era permitido ao poder Executivo, inclusive fazer nada, e nomear uma tropa de ‘vampiros’ do Estado.
Essa prática tradicional está na raiz do patrimonialismo que os políticos parlamentares querem defender na Paraíba. Ou seja, os atores principais devem ser os políticos em busca da (re) captura do Estado através dos cargos, empregos e recursos públicos. Esse processo passa necessariamente pelo afastamento do atual governador. Só falta combinar com o povo.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Eleições 2014: o organograma do poder na Paraíba

A entrada de Cássio (PSDB) na disputa para governador nas eleições de 2014 provocou uma animação extra nos bastidores da política da Paraíba. A popularidade dele será, finalmente, confrontada com a do atual governador Ricardo Coutinho (PSB). Na eleição de 2010, muitos atribuíram a vitória de RC ao Senador tucano.
O interessante agora será observar o comportamento do eleitorado diante de perfis tão diferenciados, que representam ‘escolas’ ou ‘modos’ distintos de fazer política. A força de RC talvez esteja no fato dele ter se mantido no caminho que escolheu percorrer desde que assumiu o governo. Mas, é justamente esse caminho que a oposição – agora representada pelo senador Cássio – alega ser a sua maior fragilidade.
O candidato do PSDB, assim como Veneziano (PMDB), representa a ‘velha escola’ tradicional de fazer política, e isso ficou evidente quando ele foi prefeito e governador. Trata-se de um político que segue a ‘cartilha’ que aprendeu com aqueles que o colocaram desde muito jovem na política, numa espécie de poder hereditário da democracia liberal que tende a se perpetuar.
Nada mais natural na política brasileira e paraibana. No entanto, a sua passagem pelo poder executivo comprova que, apesar de ser um político com boa oratória, o seu perfil é de político parlamentar.
Na política, existem políticos que são muito bons no parlamento e péssimos à frente da administração executiva, e vice-versa. O controle da máquina administrativa não é algo simples e nem é para todos.
Muitos que apoiavam Ricardo Coutinho para prefeito de João Pessoa em 2003 tinham dúvidas sobre a sua capacidade de assumir o poder executivo. A sua gestão foi uma boa surpresa e a cidade passou por um ciclo virtuoso de desenvolvimento. Como governador, a sua principal marca é o investimento em obras e serviços que têm favorecido o desenvolvimento do Estado em diferentes áreas, apesar da conjuntura adversa.  
Talvez, o maior limite de RC tenha sido justamente a sua capacidade de se ‘adaptar’ ao poder executivo sem conseguir inovar, transformar ou mesmo reformar o sistema político administrativo. O seu receituário é simples e capaz de provocar inveja em qualquer defensor mais radical do liberalismo econômico conservador.
O governador aprendeu como prefeito, e adotou como regra, que é preciso economizar os meios para focar nos fins. Ou seja, reduzir os custos de manutenção da máquina para sobrar recursos para realizar obras.
Numa empresa, um bom gerente é capaz de fazer isso por determinação do patrão. No entanto, no Estado, é preciso ter vontade política e assumir os riscos de medidas impopulares.
RC aplica o receituário do liberalismo econômico ao extremo, e o resultado é a insatisfação de boa parte dos servidores públicos. Mas, no cálculo político de RC isso é necessário. Não se faz omelete sem quebrar os ovos. Afinal, na sua lógica, os recursos economizados com salários e investidos em obras vão acabar beneficiando a sociedade como um todo.
Além disso, RC aprendeu que político sem dinheiro não tem poder. O Estado não pode ficar sem recursos para investimento, nem refém do governo federal, pois são as obras e serviços que vão justificar a sua permanência no poder.
Ou seja, para RC, o eleitor vai acabar avaliando o que foi feito e, na comparação com os outros governantes, ele espera que o resultado seja o mesmo que obteve em João Pessoa. Nessa perspectiva, o servidor verá, no final, que o sacrifício não foi em vão.
Esse cálculo político é arriscado, mas os seus argumentos são bem sólidos, pois o eleitor está cada vez mais pragmático, e tende a apoiar aquele que realiza benefícios para a sociedade. E para reforçar a sua estratégia, RC criou três políticas de governo: o Orçamento Democrático Estadual, o Pacto Social para o Desenvolvimento e o Empreender Paraíba.
Essas políticas não incluem os deputados como atores principais. E isso gera muita insatisfação na Assembleia Legislativa.
Desde o início, RC decidiu que iria negociar diretamente com a sociedade e com os prefeitos sem passar por intermediários. Como ex-parlamentar, ele sabe muito bem como funcionam os mecanismos de apoio político dos deputados.
O seu organograma político mais interessante passa pela regionalização do Estado através da criação de gerências regionais, do conselho estadual e conselhos regionais do Orçamento Democrático e a atuação de lideranças locais em todos municípios do Estado. Para completar esse processo, a publicação de edital para que os prefeitos melhorem os indicadores sociais na saúde e na educação assegura milhares de reais por ano que são repassados diretamente para os municípios. Para arrematar, RC distribui recursos diretamente aos produtores através do Empreender-PB e complementa a renda dos beneficiários do Bolsa Família no Estado.
Na ponta, até mesmo os prefeitos da oposição tendem a apoiar a ação do governo que traz muitos benefícios para o município. RC aposta que a sociedade tem plena consciência do que está acontecendo e não vai misturar eleição majoritária com proporcional.
Diante de todo esse esquema de poder organizado pelo governador, caso ele vença, o que é muito provável, RC vai entrar na história como aquele que conseguiu mudar o organograma da política na Paraíba. Nesse caso, os deputados vão ter que reinventar a forma de fazer política parlamentar.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Eleições 2014: o fim do 'mito' Cássio?

A pesquisa MAISPB/CONSULT apresentada no dia 27 de março aponta o senador Cássio Cunha Lima (PSDB) como o grande favorito na corrida eleitoral com 40,8% das intenções de voto contra 23,9% do governador Ricardo Coutinho (PSB), e 12,15% do candidato Veneziano Vital (PMDB). Esse resultado inicial era esperado, já que foi criado todo um processo de expectativa em torno da candidatura de Cássio como o ‘salvador da pátria’ e a ‘maior liderança política’ das oposições do Estado.
Os dados consolidados na pesquisa ajudam a reforçar a disposição legítima de Cássio, como liderança partidária, de disputar o cargo de governador. Como diz o dito popular, Cássio ‘engoliu corda’. Ele avaliou que o momento é propício para uma candidatura de oposição ao governador que está no seu primeiro mandato.
Realmente, o resultado da pesquisa não é surpreendente, já que a leitura política propalada como um ‘mantra’ quase consensual pelos analistas de plantão é de que Cássio é o grande responsável pela eleição de Ricardo. Estranho seria se a pesquisa apontasse o governador em primeiro lugar. Aliás, este último deve estar comemorando os números. Afinal, a sua experiência na eleição passada foi semelhante. Ele largou atrás nas pesquisas e foi aos poucos conquistando a opinião pública.
Entretanto, chama a atenção o patamar muito elevado de popularidade alcançado por Cássio na primeira pesquisa de opinião, apesar de não terem sido divulgados os números referentes à rejeição aos candidatos. Mesmo com um milhão de votos na última eleição, não se pode esquecer que Cássio foi cassado e virou quase uma ‘laranja podre’ na política da Paraíba e que foi resgatado justamente pelo atual governador.
Em 2010, Ricardo Coutinho gozava de um prestígio enorme devido a sua experiência exitosa como prefeito de João Pessoa, enquanto Cássio amargava o fato de ter sido cassado. Ou seja, Ricardo, que teve mais votos do que Cássio na eleição, contribuiu para dar uma segunda vida política ao senador. Se Cássio não estivesse na chapa com Ricardo, onde ele estaria hoje?
Nesse sentido, a próxima eleição será o verdadeiro tira teima, e Ricardo larga de uma posição confortável com uma boa perspectiva de crescimento. Por outro lado, Cássio terá que ampliar a sua vantagem e essa tarefa será mais difícil. É muito provável que o patamar de 40% seja o seu ‘teto’ eleitoral. E Ricardo vai fazer de tudo na campanha para mostrar que esse ‘teto’ é de vidro.
A decisão de Cássio é a oportunidade que Ricardo tem para se tornar, isoladamente, a maior liderança política do Estado. Para isso ele vai precisar reforçar os seus compromissos com os ideais que o levaram a ser governador do Estado e rever o arco de apoios e alianças.
A tendência é que a disputa seja polarizada já no primeiro turno entre Ricardo e Cássio, apesar de Veneziano ser de um partido bem estruturado em todo o Estado. Mas, tanto Cássio como Ricardo representam perspectivas reais de poder.
O que está em jogo são dois candidatos com perfis, histórias, estilos e práticas distintas que serão avaliados pelo eleitorado. De um lado, Ricardo tem uma trajetória ascendente de sucesso materializado com grandes obras e muitas ações para mostrar como resultado de quatro anos de governo. De outro, Cássio, com muitas explicações a dar depois de seis anos como governador sem muitos resultados e finalmente cassado; não se pode negar que as fragilidades da candidatura Cássio são muitas.
Os dois candidatos têm perfil personalista, sendo que Ricardo é pragmático e representa o governo de resultados, enquanto Cássio é emotivo e representa o governo que depois de seis anos não se define. O que ficou foi a imagem do governante que se apresenta como o ‘messias’, ‘pai de todos’, que ‘se preocupa com as pessoas’, com o discurso difuso que alcança o coração do eleitor, sem muitos resultados concretos. Será uma disputa entre o discurso racional / de resultado versus o discurso emocional / messiânico. E quanto a isso, o eleitor na atualidade tende a se vincular ao candidato de resultado.
Para as oposições será uma disputa entre o ‘Ricardo do mal’ e o ‘Cássio do bem’. A tendência é desviar o foco dos resultados alcançados pelo governo Ricardo e concentrar o debate no caráter ‘pouco afável’ da pessoa do governador. Cássio será apresentado como o oposto a Ricardo. Ou seja, um político carismático que trata os seus correligionários com ‘afago’.

Mas, é importante lembrar que Cássio já teve conjunturas políticas mais favoráveis e passou por sérios apuros para se eleger. Ao desafiar Ricardo ele pode ter decretado o fim do ‘mito’ Cássio na política paraibana. Esse é o jogo.