quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Eleições 2014: que falta faz o Eduardo Campos.

As eleições de 2014 são as mais acirradas dos últimos tempos. Depois de três disputas com o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) conseguiu, finalmente, equilibrar o jogo. No entanto, isso se dá muito mais pela conjuntura política e econômica do que pela capacidade mobilizadora do PSDB e de seu candidato.
Aécio Neves (PSDB) teve doze anos para se preparar para ser candidato à presidente do Brasil. Ele foi governador de Minas Gerais por oito anos e senador da República por quatro. No entanto, quando foi governador perdeu a oportunidade de se diferenciar e acumular resultados na gestão que o diferenciasse substancialmente e o credenciasse para ser presidente.
A gestão do governador Aécio em Minas Gerais tem muito mais frases de efeito do que obras, programas e ações de governo para mostrar. Se o candidato fosse Eduardo Campos (PSB), a história seria diferente, pois, nesse quesito o ex-governador de Pernambuco tinha muito para apresentar.
Aécio passou a maior parte do primeiro turno da eleição surfando na insatisfação popular com os escândalos de corrupção que envolvem o partido da presidenta Dilma. Ele deixou de lado a apresentação de um programa de governo (que só foi divulgado na última semana do primeiro turno) e de resultados concretos de políticas quando foi governador de Minas Gerais.
A campanha de Campos, por exemplo, já explorava experiências inovadoras que ele implantou na área de segurança e educação, além de obras de infraestrutura na saúde e na economia do estado. Pernambuco chegou a crescer a uma taxa maior do que a China em determinado momento com a instalação de um polo naval e a ampliação de polo petroquímico e industrial.
No governo Aécio, a história é diferente. Ele não tem obras para mostrar, a economia de Minas não cresceu, a sua dívida aumentou e os escândalos se sucederam. O caso mais grave é o mensalão que envolveu o seu vice-governador no primeiro mandato, Clésio Andrade, que se elegeu senador mas teve que renunciar para não ser cassado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Com a renúncia o seu processo voltou para a Justiça comum de Minas Gerais.
Como alguém pode querer ser presidente com esse histórico de governador? Aécio apostou no desespero e na revolta das pessoas com os escândalos de corrupção. Será que um gestor com esse perfil tem bagagem para encarnar as mudanças que o Brasil precisa continuar fazendo?
A propaganda eleitoral e os debates permitem expor os candidatos com suas potencialidades e fragilidades. No caso de Aécio, as pesquisas indicam que depois de um momento ‘salvador da pátria’ as pessoas começaram a perceber que se trata mais de um ‘fake’ do que uma perspectiva real de mudança. Pelo sim ou pelo não a tendência é que a maioria prefira o certo ao duvidoso.
O PT por sua vez, ou aprende a lição ou está fora do páreo na próxima. A sociedade já demonstrou a sua revolta e o próximo governo terá que ter critérios mais republicanos e menos partidários para ocupar os cargos públicos e nas empresas estatais. Do contrário, a população já deu um ‘aviso prévio’.
Ou seja, mesmo reconhecendo todo o avanço realizado pelos governos Lula e Dilma, o PT deve ganhar mais esta eleição muito mais pela ausência de uma oposição qualificada do que pelos seus próprios méritos. Os escândalos de corrupção deixaram sequelas gravíssimas. No entanto, não há uma liderança no horizonte com o perfil de Eduardo Campos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eleições 2014: o fenômeno da ‘bolha política’ Aécio Neves.

O candidato Aécio Neves (PSDB) está surfando numa onda que, segundo pesquisas de intenção de voto, não pára de crescer. Se o segundo turno for considerado a continuação do primeiro, Aécio ultrapassou Dilma (PT) e registrou um cruzamento no gráfico de intenções de voto. Quando isso acontece é quase irreversível, a não ser que aconteça um fato novo determinante.
Quando Marina (Rede) ultrapassou Dilma nas intenções de voto no primeiro turno, o PT fez uma campanha de desconstrução da sua candidatura que a levou ao terceiro lugar. No entanto, consideradas as especificidades de cada processo, é muito difícil acontecer um ‘duplo cruzamento’.
Se o segundo turno for considerado como uma nova eleição, e a referência seja a primeira pesquisa na qual Aécio aparece em primeiro, ainda há esperança para Dilma. Novas pesquisas vão mostrar se a tendência permanece a mesma ou se Dilma pode reagir. Se isso acontecer e Dilma ultrapassar o Aécio o cenário se inverte.
Mas, é possível considerar o segundo turno uma nova eleição? A resposta é sim. Em princípio o jogo zerou e são apenas dois candidatos com o mesmo tempo no guia eleitoral. Os debates e a quantidade de indecisos podem fazer a diferença, além do xadrez dos grupos políticos nos estados da federação.
O Aécio está sendo favorecido pelo antipetismo que é um fenômeno muito forte na sociedade. Existe uma geração de pessoas que nunca vivenciou outro governo. O PT é identificado com o stablishement e as mazelas sociais, apesar dos avanços que muitos não conseguem considerar.
A corrupção é um motivo muito forte para querer a alternância de poder e serve de justificativa para votar no Aécio. Foi assim também com Collor, cuja justificativa era caçar os marajás do serviço público.
Agora, o Aécio se apresenta como o ‘caçador’ de corruptos. O ‘salvador da pátria’. Uma proposta na contramão da chamada ‘nova política’, pois o país não precisa de um ‘salvador’ e sim de um projeto alternativo de poder.
Aécio é o candidato de uma ‘mudança’ que ninguém sabe ainda qual é. A única certeza é que não será o PT. O candidato conseguiu a façanha de fazer uma campanha para presidente sem apresentar propostas concretas e chegar ao segundo turno.
Mas, é possível seguir algumas pistas e agora no segundo turno ele terá necessariamente que apresentar alguma proposta. Caso eleito, o seu ministro da economia será o Armínio Fraga que já foi presidente do Banco Central do governo Fernando Henrique (PSDB).
Com essa escolha temos a certeza de que se trata de uma proposta de mudança nada inovadora. Afinal, Fraga já foi mal sucedido uma vez.
Segundo ele, o Brasil está num carro rumo ao abismo e temos duas alternativas: ou pulamos do carro ou fazemos a volta. Isso lembra uma frase criada pelo regime militar: ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. Como solução para a economia carece de objetividade.
A sociedade brasileira está numa situação difícil. De um lado, um governo atolado em denúncias de corrupção. De outro, um grupo que quando esteve no poder jogava toda a corrupção para debaixo do tapete.
O Aécio não diz o que vai fazer de forma objetiva porque talvez se disser as pessoas não votem mais nele. Ele aproveita o sentimento de repúdio e de revolta da sociedade para pedir uma espécie de ‘cheque em branco’ ou ‘procuração’ com o discurso de mudança. O resultado disso pode ser um grande estelionato eleitoral como foi o Collor.
A alternância de poder é salutar para a democracia. No entanto, é preciso que a sociedade saiba o que será feito. A falta de transparência de Aécio já é um mau presságio.
O Aécio se apresenta com uma estética convincente para o país, bastante diferente daquele que os mineiros conhecem. Resta saber se o PT vai ter a mesma eficiência para desconstruir a sua imagem como fez com a Marina.
A desconstrução de Marina acabou levando-a para outro campo político e apesar do seu discurso da ‘nova política’ declarou apoio ao Aécio Neves. Na realidade, a sociedade vai ter que escolher entre dois modelos: um governo que pratica uma política econômica heterodoxa de desenvolvimento autônomo com distribuição de renda, ou um governo liberal que tende a implantar uma política ortodoxa de desenvolvimento associado em detrimento do social.
O PSDB conseguiu criar uma ‘bolha política’ chamada Aécio Neves. Só resta saber se ela vai estourar no segundo turno ou depois da eleição. Com a palavra o eleitor.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Eleições 2014: Dilma e Marina, dois modelos em disputa.

Qualquer análise sobre o processo de eleição para presidente da República do Brasil no ano de 2014 tem que fazer referência às manifestações de junho de 2013. Afinal, a população expressou diretamente nas ruas a sua insatisfação com os serviços de saúde, educação, segurança, mobilidade etc. comparando-os como o padrão Fifa dos estádios construídos para a Copa do Mundo.
A população se mobilizou para reivindicar também uma reforma política e se contrapor aos escândalos de corrupção denunciados no processo do mensalão. Os partidos políticos e os sindicatos tentaram surfar na onda de insatisfação social empunhando as suas bandeiras mas foram rechaçados pela população, pois também são representantes de um modelo delegativo em crise que não representa a sociedade como um todo.
A conjuntura econômica, política e social desfavorável é marcada pela crise no crescimento econômico e no sistema de representação política. Essa insatisfação social foi reforçada pelo declínio do ciclo de expansão do acesso aos bens de consumo e de serviços.
No início do processo, as principais candidaturas postas eram a de Dilma, Aécio, Eduardo Campos e Marina. A Dilma tinha pela frente um processo de reeleição com um cenário desfavorável, com o governo enfrentando várias crises no plano econômico, político e social. Sem carisma e sem ser mais do que o PT como Lula sempre foi, Dilma se manteve firme com o projeto de reeleição e sempre liderou as pesquisas de opinião.
Aécio passou a se apresentar como representante legítimo da oposição, mas sem uma proposta inovadora. O seu discurso não conseguiu alavancar a sua candidatura como alternativa explícita para o Estado social criado por Lula e não agregou novos eleitores.
Eduardo Campos se apresentava como alternativa à Dilma dentro do mesmo campo político, concorrendo com Marina que tentou o registro do seu partido para entrar na disputa eleitoral com a Rede Sustentabilidade.
Apesar de outros partidos conseguirem o registro como o PEN, o PSD e o PROS, curiosamente, a Rede não conseguiu. Mas, se a intenção era isolar e deixar de fora da eleição uma candidata que teve quase vinte milhões de votos em 2010, Marina criou o primeiro fato novo significativo do processo eleitoral. Ela decidiu apoiar Eduardo Campos e se filiou ao PSB.
Marina não imaginava que o Eduardo Campos morreria num acidente de avião que comoveu o país inteiro. O PSB lançou então a candidatura de Marina e criou outro fato relevante para a disputa eleitoral. O embate Marina versus Dilma.
Cada candidatura tem uma característica própria. Dilma defende a manutenção do status quo e enfrenta o aumento da inflação. Além disso, ela sofre os efeitos das manifestações de 2013, do mensalão, do escândalo da Petrobrás e do desgaste de 12 anos de poder do PT. Ainda assim, se mantém na frente das pesquisas de intenção de voto.
O PT representa o stablishement que é responsável pelas conquistas sociais (agenda positiva), mas também encarna o papel de responsável pelas mazelas na saúde, educação, segurança, mobilidade etc. (agenda negativa). O governo de Dilma tem uma matriz ideológica ‘estadocêntrica’ na qual o espaço público é identificado com o Estado e com a centralização burocrática. O seu projeto de megaestado inclui o aparelhamento do Estado com a representação sindical, partidária, estudantil, ONGs etc. de cerca de 60 mil pessoas.
Aécio carrega a herança do governo FHC. Apesar disso, passou anos na oposição sem apresentar um projeto alternativo de poder. O seu discurso é tradicional e representa a volta a um passado não desejado pela maioria da sociedade brasileira. A sua matriz ideológica é social-liberal, vinculada ao neoliberalismo e à crítica ao Estado social.
Marina é identificada com o campo político de Dilma marcado pelo Estado Social. Mas, ela apresenta um discurso de 3ª geração que a diferencia de Dilma. Marina defende a ‘nova política’ que é baseada no ativismo social (modelo sociocêntrico) expresso nas ruas em junho de 2013 como contraponto ao modelo de representação (delegativa) sindical e partidária e de aparelhamento do Estado do governo Dilma (modelo estadocêntrico).
A proposta da nova política é baseada no desenvolvimento de uma sociedade estruturada em rede, para além da estrutura verticalizada e hierarquizada dos sindicatos e partidos. Trata-se de um novo modelo de representação de interesses que segue uma lógica do ativismo social numa perspectiva autoral. A matriz ideológica sociocêntrica é mais identificada com o espaço público na sociedade (nova política). Para implantar esse modelo Marina defende o uso de novas tecnologias de informação e de comunicação do Estado com a sociedade.
No entanto, muitos eleitores não conseguem perceber esses elementos no discurso de Marina. Os fatores que influenciam o voto do eleitor estão mais vinculados às questões de gênero, faixa etária, renda, meio social etc. Nesse sentido, o papel da juventude e das redes de informação na formação do voto é fundamental. A sua candidatura se mantém porque não há mais o monopólio da informação, do contrário não teria eco.
Para o eleitor comum a preocupação é cada vez maior com o resultado produzido pelo governo, pelas conquistas sociais; o eleitor tende à reconhecer o candidato que produz resultado. A aceitação do discurso emocional messiânico populista ainda é uma realidade mas numa proporção menor. A tendência então é apoiar a candidatura que represente a melhoria de vida e apresente resultados concretos. O discurso racional tem maior penetração no eleitorado. 
Ainda existe uma desconfiança em relação à mudança, ao novo. O eleitorado tende a ser conservador e valorizar as suas conquistas.
Mas, afinal, o que está em disputa na eleição presidencial no Brasil? De um lado a manutenção do status quo, de outro a mudança. De um lado um modelo estadocêntrico, de outro uma proposta de modelo sociocêntrico.
O caldo do debate sobre qual caminho seguir é formado pelas conquistas sociais de um lado, e pelos escândalos de corrupção de outro. O medo de mudar e dar errado também povoa a mente do eleitor. Lula enfrentou isso e agora é a vez de Marina.
A principal agenda nestas eleições é a manutenção do Estado social e a ampliação das conquistas sociais. Ou com a manutenção do modelo estadocêntrico ou com a implantação de um novo modelo. A reforma política pode mudar as regras do jogo com os mesmos atores ou criar uma nova política que implica na superação do modelo tradicional de representação política.
Os candidatos enfrentam problemas que podem ajudar a avaliar as perspectivas de cada um. A Dilma não tem o carisma de Lula, não é mais do que o PT como Lula é, e tem mais dificuldade de superar os escândalos produzidos pelo seu governo. O Lula tinha mais habilidade neste quesito. No entanto, ela está se saindo muito bem apresentando propostas de reformas para combater a corrupção que é o maior calo do seu governo.
O Aécio não tem carisma, simboliza e defende um passado que a sociedade não quer voltar. O PSDB representa a crítica ao Estado social que é apoiado pela maioria da população brasileira. O seu trunfo é que ele simboliza o antipetismo, muito em voga hoje na sociedade.
A Marina tem a resistência do eleitorado conservador e muito pouco tempo de guia eleitoral no primeiro turno. Ela é alvo constante do terrorismo eleitoral da campanha do ‘medo’ da mudança, do ‘incerto’ e não tem como se defender à altura. Ela sofre de bullying eleitoral do marketing que tenta construir a imagem de candidato incapaz de governar. O seu trunfo pode ser a vitimização e o antipetismo.
Mas, afinal, a tendência do voto do eleitor é aprovar a política de resultado ou reprovar o petismo? A tendência do eleitor é assegurar a manutenção do campo político no poder com Dilma ou com Marina. Por isso, as chances de Aécio são mínimas.
A Dilma tem a vantagem do poder da caneta e do ‘medo’ da mudança, mas tem o ônus de ser governo e do PT. A Marina tem a vantagem de ser do mesmo campo político sem ser do PT.
No segundo turno o embate entre Dilma e Marina com o mesmo tempo no guia cria novas possibilidades para aprofundar o debate político e estabelecer uma delimitação mais nítida das duas propostas. O tempo de exposição vai favorecer Marina que é prejudicada no primeiro turno, pois tem uma boa retórica e posições bem firmes. A Marina não lê os discursos, ela expressa as suas ideias e isso é um diferencial importante.
O debate polarizado vai definir a escolha do eleitor. Será uma nova eleição com a possibilidade de surgir novos fatos que podem mudar os rumos da campanha: denúncias, desempenho nos debates etc. O jogo está aberto. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eleições 2014: pesquisa eleitoral e voto na Paraíba.

Se considerarmos as pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora na Paraíba, a eleição para governador já estaria definida em favor de Cassio Cunha Lima (PSDB). O cenário seria favorável ao candidato em todas as regiões do Estado com uma margem tão ampla que os blogs e portais destacam a possibilidade de vitória já no primeiro turno.
Recentemente, a Paraíba teve um fenômeno parecido. Em 2010, José Maranhão (PMDB), então candidato a governador, liderava todas as pesquisas com ampla margem de votos. Os principais assessores do então candidato já falavam em comprar o terno da posse.
O que ficou comprovado depois da abertura das urnas é que as pesquisas não correspondiam à realidade. Os institutos de pesquisa se esquivaram afirmando que as pesquisas representavam um momento e que o eleitor pode mudar de opinião na última hora.
No entanto, o que parece ser uma mudança de opinião do eleitor pode ser uma manipulação flagrante de dados para tentar criar um cenário que não existe no imaginário do eleitorado. Muitos estudos apontam para o fato de que o eleitor tende a votar no candidato com perspectiva de vitória. Esse argumento sustenta uma estratégia eleitoral arriscada de manipulação de pesquisas eleitorais que segue a lógica do ‘se colar, colou’.
As pesquisas eleitorais não podem ser analisadas apenas pelos números que apresentam e também não podem ser o único referencial para entender o comportamento eleitoral. Quem faz análise política precisa fazer uma análise qualitativa da conjuntura para tentar compreender de que forma os interesses da sociedade vão se expressar nas urnas.
A estratégia do PSDB nas eleições de 2014 é muito parecida com a do PMDB de 2010. Você cria um cenário com pesquisas eleitorais que, mesmo questionadas e reprovadas pela Justiça Eleitoral, cumprem o papel de criar uma realidade desejada por um grupo político. Ou seja, a informação que o cidadão tem e reproduz nas discussões de mesa de bar, em casa e com os amigos é o resultado das pesquisas.
Essa estratégia política tem um poder muito grande de disseminar uma informação com ‘caráter’ científico. Ou seja, o eleitor tende a aceitar a pesquisa como instrumento de verificação de intenção de voto e identificá-la como ‘verdadeira’ mesmo que o seu voto seja diferente.
A pesquisa eleitoral se transformou na Paraíba, assim como em outros lugares no país, numa ferramenta de manipulação da opinião pública. No entanto, na Paraíba, essa estratégia não funcionou em eleições anteriores.
Para acreditar que essa estratégia funcione é preciso considerar que a opinião pública é manipulável. Mas, o eleitor de hoje não é mais o mesmo de dez ou vinte anos atrás. Hoje, o eleitor está cada vez mais pragmático e tende a apoiar os gestores que realizam obras e melhoram a sua condição de vida e a dos seus filhos.
Nesse sentido, é preciso procurar entender a lógica dominante no eleitorado em função dos benefícios que ele tem conquistado. Afinal, quem votaria no governador Ricardo Coutinho (PSB) candidato à reeleição? Essa é a pergunta que deve ser feita.
As pessoas que votam no governador foram beneficiadas de alguma forma pelas ações do governo, seja pelo Orçamento Democrático, o Empreender Paraíba, o Pacto pelo Desenvolvimento, com o transporte escolar, as estradas, a água na torneira, hospitais, escolas etc. e até mesmo o emprego no Estado. Afinal, mais de dez mil concursados foram convocados e as categorias receberam reajuste salarial todos os anos, inclusive, no caso da educação, o 14º salário. Além disso, os movimentos sociais no campo e na cidade têm uma aproximação com as ações do governo estadual, sem contar as famílias beneficiadas pelo bolsa-família. Qual seria o percentual do conjunto dessa população no eleitorado paraibano?
Quando se analisa os dados de investimentos do governo do Estado da ordem de sete bilhões de reais, isso representa um conjunto de obras e serviços que estão gerando emprego e renda para muitas famílias que, por sua vez, devem estar satisfeitas com a oportunidade gerada. As pessoas que são beneficiadas diretamente tendem a repercutir positivamente junto aos seus familiares, amigos etc.
Do ponto de vista da análise qualitativa, a categoria mais insatisfeita com o governo é a dos políticos e familiares que perderam muitas benesses que recebiam do Estado. A partir de então, com os interesses pessoais atingidos, uma onda de insatisfação de um segmento importante na formação da opinião pública se difundiu.
Mas a pergunta que fica é a seguinte: será que os interesses contrariados de uma minoria representa os interesses da maioria da população? Será que a população vai apoiar a iniciativa de um governo que investe em obras, serviços e ações, ou vai ficar do lado da minoria contrariada? Com a palavra o eleitor.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Eleições 2014: o legado de Eduardo Campos (PSB).

A morte de Eduardo Campos (PSB) causou um ‘tsunami’ na disputa eleitoral para presidente do Brasil. O impacto da sua morte, com a comoção nacional e a repercussão internacional, não deixa dúvida do potencial de sua candidatura, cuja fase principal iria começar com o horário eleitoral (no rádio e televisão) e com os debates. 
Com um discurso coerente e decidido Campos se credenciava para ser uma ‘alternativa’ desejada pela sociedade brasileira: mudar de governo sem mudar de campo político.
O sentimento é de que a morte chegou na hora errada para a pessoa errada. Mas, de uma tragédia humana e de uma lástima para a política brasileira é preciso tirar alguma lição. A sua morte não pode ter sido em vão. Acreditar que somente ele poderia ser o protagonista desse processo seria acreditar no ‘salvador da pátria’, e esse não parecia ser o propósito de Eduardo Campos.
O projeto político até então encabeçado por ele tem que seguir em frente, mesmo que não seja com o seu principal protagonista. E a pessoa mais indicada para dar continuidade é a Marina Silva (PSB/Rede de Sustentabilidade). E esse parece ser o legado de Campos.
Marina não é o mesmo que Eduardo, assim como Eduardo não era o mesmo que Marina. O encontro dos dois foi o maior fato político da campanha eleitoral até então, superado apenas pela morte trágica de Campos. A partir de agora, a candidatura de Marina passa a ser o fato político mais importante da campanha presidencial. Resta saber o impacto que isso vai provocar.
Marina demonstrou grande habilidade política ao se filiar ao PSB de Campos levando consigo a Rede. Ela sabia que não podia ficar de fora do embate político e identificou no projeto de Campos um porto seguro para embarcar na disputa eleitoral.
Marina foi uma estrategista habilidosa e surpreendeu os políticos e analistas mais experientes. Campos, por sua vez, se sentiu fortalecido e legitimado como alternativa política.
Quando resolveu apoiar Campos, Marina, que teve quase vinte milhões de votos na última eleição, estava em segundo lugar nas pesquisas e teve o pedido de registro do seu partido negado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Na ocasião da sua filiação ao PSB ela chegou a afirmar que a Rede de Sustentabilidade era o primeiro partido político na clandestinidade depois da Constituição de 1988.
Marina chegou para somar a candidatura de Eduardo Campos, mas isso não se traduziu em intenções de voto. Campos tinha em torno de 8% nas pesquisas, o que era bastante, considerando o fato de que era desconhecido da maioria da população brasileira.
Marina, ao contrário, já foi senadora da República, ministra do meio ambiente do governo Lula e candidata à presidente do Brasil. Além disso, ela criou vários fatos políticos com repercussão na mídia que a projetaram nacionalmente a partir do Congresso Nacional.
Nas eleições de 2010, Marina tirou proveito do chamado ‘voto de protesto’ dos que não queriam ver a eleição ser resolvida no primeiro turno devido à ausência de debate político. No entanto, ela não conseguiu evitar a polarização PT x PSDB no segundo turno.
A proposta de Eduardo Campos era ser a terceira via, mas não como ‘voto de protesto’ e sim como ‘opção de voto’ para mudar o Brasil sem mudar de campo político. O desafio de Marina será conquistar esse patamar e não ser apenas uma expressão do ‘voto de protesto’ e sim uma alternativa real de poder.
No entanto, a candidatura de Marina já começa com um problema. O candidato à vice é do Sul e um ilustre desconhecido no Nordeste e do restante do país. Será um desafio explicar a sua escolha.
O PSB perdeu a chance de reunir o ‘racional’ com o ‘emocional’ na campanha. A esposa de Eduardo Campos na chapa como vice seria a representante ideal do Nordeste que falta para Marina, além de manter viva a lembrança do marido.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Eleições 2014: a política e o discurso ‘sustentável’.

As sustentabilidade é um tema que não diz respeito apenas ao chamado ‘meio ambiente’. Na política, também, o discurso e a prática do político tem quer ser sustentável. Do contrário, não deve ser eleito.
É possível classificar os políticos de sustentáveis e insustentáveis. O primeiro consegue associar a sua prática ao seu discurso. O segundo não.  
O discurso político tem que estar vinculado à prática do político. Falar uma coisa e fazer outra pode ser interpretado pelo eleitor como ‘poluição discursiva’, ou seja, insustentável.
No entanto, muitos políticos ainda tentam reeditar velhos discursos ‘poluidores de mentes’ que não se sustentam. E a população, por sua vez, se identifica cada vez mais com o discurso político sustentável que encarna a novidade na política de fazer o que diz.
Nos tempos atuais, o tema da sustentabilidade faz parte de todo tipo de agenda: produção de bens, mobilidade urbana, educação, saúde, agricultura, esporte, acessibilidade etc. No entanto, muitos políticos falam de sustentabilidade e não praticam.
A sociedade tem uma dinâmica diferenciada da política. Os políticos, em geral, perdem o compasso e se distanciam da sociedade.
Ainda existe muito político com ‘discurso fácil’ de ‘terra arrasada’ que não se preocupa com a sustentabilidade do próprio discurso. A crítica genérica e generalizante muitas vezes é um ‘tiro no pé’, pois o próprio eleitor/usuário/cidadão não reconhece naquela a sua realidade. Essa busca ‘predatória’ pelo voto pode afastar o eleitor e provocar um impacto negativo para o político.
O eleitor está mais interessado no político que se compromete com propostas que cuidem das pessoas, da natureza, mas que tenha capacidade de fazer o que diz. No entanto, muitos políticos ainda não fazem essa ‘leitura’ da sociedade.
Muitos apostam na memória curta do eleitor e na possibilidade de comprar o voto dos mais humildes aos mais ricos, de um modo ou de outro, numa perspectiva ‘predatória’. Mas, a sociedade do século 21 tem parâmetros e exigências que, no geral, apontam para uma mudança no comportamento e no nível de exigência e expectativa do eleitorado.
No período eleitoral sempre surge um candidato com o velho discurso de ‘salvador da pátria’, daquele que vai resolver todos os problemas do mundo. O ‘salvador’ sempre tem um discurso focado no lado emocional e a sua proposta é representar os oprimidos, os perseguidos, e defendê-los. É o representante do bem que vai livrar a sociedade do mal.
No entanto, essa estratégia messiânica é equivocada e não tem sustentabilidade, pois o discurso tem curta duração. Quando surge como novidade, com uma plataforma transformadora, o candidato ‘predador de votos’ consegue convencer o eleitorado e representar o ‘novo’ na política. A população acredita a acaba dando um voto de confiança. Foi assim com Collor, por exemplo, e muitos políticos pelo país afora.
Não é preciso muito esforço para convencer a população que quer mudança. Mas, aí vem o governo do político e com ele o confronto entre o discurso e a prática revela as deficiências e as potencialidades de cada um. No contexto atual, a ausência de novidade é insustentável.
O resultado pode ser um político com ‘discurso novo’ governando com ‘velhas práticas’. O balanço que se faz é de que essa estratégia geralmente funciona para o político e seu grupo, mas não para a sociedade.
O discurso do político tem que ser sustentável, tem que ser emocional, mas, sobretudo, racional. O político tem que prestar contas dos seus atos enquanto gestor público. É sua obrigação apresentar dados, números, resultados concretos de suas experiências como gestor público. As suas ações têm que ser sustentáveis.
No século 21, o político não tem mais como viver de discurso ‘fácil’. A estratégia de marketing que se apoia apenas no discurso messiânico emocional é equivocada e deficiente.
Mas, quando o político só tem isso, o marqueteiro não pode fazer milagre, mesmo que seja para o ‘salvador da pátria’. Isso é o que define a falta de sustentabilidade na política e o resultado previsível deve ser a derrota eleitoral.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eleições 2014: o ‘velho’ discurso do ‘novo’.

Existe uma fragilidade flagrante no discurso dos candidatos de oposição ao governo do Estado da Paraíba. Todos tentam encarnar o papel de uma ‘nova’ alternativa. No entanto, caracterizar Cássio (PSDB) e Vital (PMDB) de ‘novo’ é uma missão quase impossível para qualquer marqueteiro que se preze. Parece mais uma gozação com o eleitor.
O discurso do principal candidato de oposição é batido, não se recicla. Parece que Cássio parou no tempo, ou mora em outro lugar. No mínimo, perdeu um link com a realidade do Estado, assim como boa parte da chamada ‘classe’ política. Ele ainda utiliza chavões ultrapassados que desconsideram a conjuntura política, social, econômica e cultural da população. A Paraíba de 2014 não é a mesma de 2002.
Hoje, muitas cidades de pequeno e médio porte do interior da Paraíba apresentam níveis consideráveis de desenvolvimento em todas as áreas. A população está mais informada, sintonizada com o que está acontecendo não apenas na sua cidade, mas em todo o Estado e no país.
Mesmo assim, é notório o alto grau de voluntarismo no discurso dos candidatos de oposição. Parece com um time sem técnico e que não treina. Entra para jogar sem fazer o dever de casa achando que vai agradar ao público, pois no terreno do discurso ‘fácil’ é ‘craque’. Mas, atenção, os aplausos podem se tornar vaia em pouco tempo, e uma derrota pode virar uma goleada.
Esse tipo de atitude desconsidera a capacidade do eleitor de compreender a realidade dos fatos. O tempo do discurso fácil passou. O eleitorado tem outro perfil; não há como desconsiderar a capacidade crítica do eleitor. Apesar das lacunas dos estudos sobre o eleitorado, é senso comum que ele está cada vez mais exigente e qualificado.
Enquanto isso, a oposição na Paraíba sobrevive de críticas às ações de um governo que tem mais de 70% de aprovação da população. Ou seja, ou os políticos não entendem o perfil do eleitorado, ou querem impor um perfil desejado sem avaliar as consequências.
Numa democracia, a oposição é fundamental. Mas, é preciso ter conteúdo e fazer o dever de casa.
Na contramão, a oposição na Paraíba assume um discurso de maioria quando na realidade é minoria. Recentemente, um grupo político da Paraíba experimentou essa estratégia de marketing construída na realidade daqueles que falam como se fosse a realidade daqueles que escutam. O resultado não podia ser diferente, ou seja, foi a derrota.
É notório que os políticos no Brasil, e na Paraíba, estão distantes dos interesses da população de um modo geral. Ao invés de serem pautados pelos interesses da população, os políticos tentam pautar a ação da população de acordo com os seus interesses. E é isso que está acontecendo na Paraíba hoje.
O interesse em aproveitar o momento eleitoral para captar recursos e eleger os seus pares, muitas vezes familiares, está acima de qualquer interesse da população. Pior, está muito distante do interesse da população. E o discurso mais fácil é atacar tudo que se faz, mesmo que em benefício dos mais carentes. É uma luta de (o) posição, do poder pelo poder.
Nesse contexto, a saúde, a educação, a mobilidade, a segurança e as políticas sociais são os principais temas. E o discurso mais fácil é o da crítica da ‘terra arrasada’ sem apresentar dados ou apontar as soluções. Da boca dos políticos, o interesse do Estado, do povo, é o que mais se ouve. Mas, o interesse do político não se discute, e não está na pauta. Afinal, o político está se ‘sacrificando’ para melhorar a vida da população, e blá, blá, blá.
Na realidade, não existe fato novo que abale a imagem construída de um governo de resultado, por mais que o discurso da oposição tente. Ou seja, nos últimos anos, a Paraíba avançou em várias áreas com muitas obras e serviços que nunca tinham chegado à população. Tudo dentro dos limites da Paraíba, um Estado pequeno e pobre. E isso a sociedade tem capacidade de avaliar. Não considerar isso é querer tapar o sol com a peneira.
É verdade que nem todos os problemas foram resolvidos, e nem poderiam ser em apenas quatro anos. Alguns têm séculos de existência e seria exigir demais. O próprio governo tem seus limites, pois, convive com processos inovadores e tradicionais que impulsionam e atravancam, numa dialética historicamente construída.
As forças conservadoras resistem às mudanças e o gestor tem que lidar com isso. O próprio gestor é influenciado pela cultura conservadora e inflexível.
Mas, o Estado, o gestor, os políticos, todos precisam mudar. A dinâmica da sociedade não é mais a mesma. A finalidade da política não pode ser a própria política ou o interesse dos políticos.