terça-feira, 1 de setembro de 2015

O governo Dilma e a crise: do início ao fim.

O governo Dilma ainda não conseguiu se livrar do terceiro turno eleitoral e sofre as conseqüências da maior polarização política com características de ‘classes antagônicas’ já vistas no Brasil contemporâneo. Cada vez mais isolada e sem rumo, a Presidenta corre sério risco de não terminar o seu mandato.
A estratégia das oposições de ‘sangrar’ o governo até cair e livrar o país do Partido dos Trabalhadores (PT) tem funcionado até agora. A crise econômica é alimentada todos os dias pelas oposições que criam no imaginário coletivo um cenário de caos que termina por engendrar um ciclo vicioso que afugenta os investidores e cria um clima de incerteza cada vez maior.
Para as oposições, o cenário é o melhor possível, com grandes perspectivas de alternância de poder no horizonte, mesmo que em detrimento da estabilidade do país como um todo. Não importa a magnitude do problema e o impacto social que causa na população. Quanto pior, melhor.
Se o governo continuar acertando e o país melhorando, o PT vai continuar no poder, e isso não é ‘aceitável’ para as oposições derrotadas no processo eleitoral. Ou seja, grande parte da população não tolera mais os sindicalistas, marxistas e ex-pobres ocupando espaços de destaque na política, na gestão pública, mas também nos aeroportos, hotéis, lojas de automóveis, com moradias dignas entregues ‘de graça’ etc., coisas que antes eram reservadas apenas para as elites intelectuais e econômicas.
Todo esse clima de insegurança começou bem antes do primeiro turno das eleições. Os candidatos das oposições lançaram mão do discurso da crise fiscal para conquistar os eleitores diante de um governo com bons resultados para apresentar. O discurso era de que os bancos estatais estavam quebrados; o Brasil estava caminhando para o abismo; não sabiam se sobraria alguma coisa para quando assumissem o governo. O mais puro terrorismo eleitoral não passou impune pela sociedade e principalmente pelos mercados financeiros.
De um lado, a alternativa das oposições era o receituário ortodoxo neoliberal de ajuste fiscal para resgatar a economia e tirar o PT do poder. De outro, a Dilma defendia a política do seu governo de investimentos e subsídios, e que havia garantido até então o crescimento econômico mesmo que pequeno num cenário internacional adverso.
A maioria da população decidiu dar o voto de confiança na continuidade do modelo de desenvolvimento com participação do Estado e distribuição de renda. No entanto, ao tomar posse a presidenta Dilma nomeou um ministro da economia com pouca habilidade política e que reza na cartilha do Fundo Monetário Internacional (FMI), um receituário ortodoxo comprovadamente ineficaz, sobretudo num país como o Brasil.
Ou seja, o governo passou a promover a redução do fluxo de dinheiro na economia, cortando investimentos e aumentando a taxa de juros e os impostos. O resultado esperado é uma recessão que acabe com a inflação, e quem sabe com o próprio país.
Dilma deve ter imaginado que a escolha de um ministro com esse perfil acalmaria as oposições. No entanto, as medidas de austeridade acabaram desagradando a todos, e as pesquisas de opinião comprovam isso.
De um lado, as oposições passaram a acusar Dilma de estelionato eleitoral por estar aplicando as medidas de ajuste que eles propagavam como sendo as necessárias durante a campanha eleitoral. De outro, a base governista se sentiu traída e passou a contestar o próprio governo com perfil desfigurado pela política econômica do ministro Levy.
O Brasil de 2015 continua sendo o mesmo de 2014. O mercado de consumo é enorme, os problemas sociais não se comparam com o que a Europa e até países da América Latina estão passando. Houve muito avanço na área de infra-estrutura e no desenvolvimento social. Portanto, o Brasil deveria ser um excelente lugar para se investir.
No entanto, se nós mesmos dizemos todos os dias o contrário, os investidores estrangeiros têm motivos para desconfiar. Essa crise de auto-estima deriva da revolta dos que não aceitaram até agora o resultado das urnas.
Além da crise fiscal e inflacionária, o governo enfrenta várias outras. A começar pela crise hídrica, que compromete não somente o abastecimento humano, animal e das lavouras, como todo o sistema de geração de energia e boa parte da produção que é escoada por cabotagem. Isso gera um prejuízo financeiro enorme para empresas, além do desemprego no setor, e termina por encarecer o preço da energia que alimenta a inflação.
Outra grande crise é a ética. A operação lava-jato revela as profundezas do patrimonialismo no país, que é histórico e endêmico em todos os níveis. Mas, neste caso, o governo federal merece todos os créditos por não interferir, e o país demonstra com isso um amadurecimento institucional, mesmo que de forma pontual.
Pela primeira vez, pessoas estão sendo presas e processadas por corrupção. No entanto, as empreiteiras envolvidas nas grandes obras de infra-estrutura estão impedidas de continuar o trabalho e isso deixa o governo de mãos atadas para movimentar a economia. As empresas não recebem, demitem, e entram numa espiral negativa.
Existem grandes refinarias que estão quase prontas, mas que as obras foram paralisadas e milhares de pessoas foram demitidas devido à operação lava-jato. Com isso, outros países ganharam mais tempo para vender os derivados de petróleo que nós mesmos poderíamos estar produzindo, gerando emprego, renda e riqueza.
Qualquer leigo sabe que a economia brasileira depende da contratação de grandes obras e serviços por parte do Estado em todos os setores. Ou seja, o prejuízo pela paralisação é de milhares de empregos e consumidores que deixam de comprar e isso atinge todos os setores da cadeia produtiva, de serviços a produção de bens, e causa uma brutal queda de arrecadação de impostos.
Com o fechamento dos cofres do governo, a economia entra em recessão. A conseqüência é a queda na arrecadação e um círculo vicioso se reproduz.
Além desses problemas, ainda tem o Congresso Nacional cada vez mais ‘autônomo’, ou rebelde, como se estivesse numa espécie de crise de abstinência de propinas e mensalões. Afinal, a fonte secou. E, infelizmente, os nossos parlamentares (e políticos em geral) não têm projetos para o país ou alguma utopia para defender. O que move os políticos no Brasil são os interesses patrimonialistas que estão muito distantes dos interesses da sociedade como um todo. Brasília parece ser um país distante do Brasil, ou quem sabe um outro planeta.
Para completar, Dilma vai ter que enfrentar a Controladoria Geral da União (CGU) e a aprovação das suas contas de governo no Congresso Nacional, acuada e fragilizada. As oposições estão ganhando a batalha e a estratégia de ‘sangrar’ até cair está funcionando.
Afinal, quando ligamos a televisão o que vemos é o fim do mundo. O Brasil quebrou. O Brasil está no fundo do poço. Não há notícia boa. Quando há, os jornalistas ficam até constrangidos, como se estivessem contribuindo para ajudar o governo do PT. Quando a manchete estampa que o Brasil alcançou mais um recorde negativo podemos ouvir os gritos no final da rua.
Afinal, tudo se justifica para destituir o governo dos ‘vermelhos’ e substituí-lo pelo ‘verde e amarelo’. A intolerância chegou ao nível mais baixo que até a intervenção militar faz parte das reivindicações.
As oposições perderam as eleições, mas conseguiram polarizar o país. Com um cabedal de quase 50% do eleitorado, não querem permitir que o governo seja bem sucedido, mesmo que em detrimento da maioria da população mais carente que sofre as conseqüências de uma crise alimentada pelas elites políticas que pouco se importam com o povo brasileiro.
Quanto aos comentaristas dos principais jornais e revistas, esses atuam como profetas do apocalipse. A pauta é o caos e a expectativa é a queda do governo. A palavra de ordem é extirpar o PT do poder.
O governo Dilma paga o preço pela falta de planejamento do seu primeiro governo, e pela manutenção da incompetência institucionalizada de carteirinha em vários setores. Sem rumo e acuada, a última alternativa é buscar apoio nas velhas estruturas do sistema político do toma-lá-da-cá. É o fim. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Brasil em crise. Existe um país para além do Sudeste?

É sabido que a edição do noticiário ‘nacional’ no Brasil é produzida na região Sudeste, em São Paulo e Rio de Janeiro, por razões que são historicamente dadas. No entanto, este fato provoca cada vez mais um hiato entre a realidade relatada pela grande mídia e a vida do cidadão comum nas diferentes regiões do país. Esse fenômeno sempre existiu, mas com as novas mídias as suas contradições ficam mais expostas.
A realidade do paulista não é a mesma do paraibano, ou do goiano e assim por diante. A crise que se vive lá não é a crise que se vive aqui e vice-versa. O Brasil é um país continental que deixou de concentrar todo o seu desenvolvimento em torno de São Paulo, apesar de ainda ser o estado economicamente mais importante. Muitas empresas e indústrias estão se ‘deslocando’ para outras regiões do país em busca de melhor infraestrutura, logística, novos mercados e, por que não dizer, qualidade de vida para os seus empregados produzirem mais e melhor.
No entanto, essa nova realidade de uma economia mais descentralizada e heterogênea não aparece no noticiário ‘nacional’ de forma clara e perceptível. As informações gravitam em torno da região Sudeste, como representante de um país inteiro, que concentra o poder econômico, político e da informação.
A crise que atinge a região Sudeste é o resultado da perda de empresas e empregos que antes confluíam naturalmente para lá. Entretanto, existem regiões no país que recebem novas empresas e que não conhecem a mesma crise dos paulistas, ou até não conhecem crise alguma. Muito pelo contrário.
Mas, todos os dias são disseminados no noticiário ‘nacional’ que o país como um todo está numa grave crise, como se todos fôssemos paulistas ou cariocas. Mas, aí alguém pode dizer que os dados macroeconômicos demonstram efetivamente a existência de uma crise no país como um todo. A crise hídrica, por exemplo, é um fenômeno que não se restringe mais apenas ao Nordeste.
É sabido que a economia não é uma ciência exata e sim aplicada, e que depende de expectativas positivas para produzir cenários futuros no presente. Mas, como ter um cenário futuro promissor com uma perspectiva tão negativa e enviesada produzida por quem está no ‘olho do furacão’ de uma crise?  
No noticiário ‘nacional’, a culpa de todos os problemas sempre é dos governos sem que seja questionada a falta de criatividade do mercado, dos empresários e dos próprios governantes dos estados para buscar alternativas ou medidas que alavanquem o desenvolvimento. Nós, brasileiros, estamos sempre em busca de um culpado, de um salvador da pátria e de um chefe que diga o que fazer. Enquanto não se sabe, cada um se vira como pode sempre querendo levar vantagem em tudo, mesmo que os interesses individuais se sobreponham aos interesses coletivos, ou que os interesses patrimonialistas de grupos se sobreponham aos interesses da sociedade.
Os gestores dos estados e municípios tendem a culpar o governo central que por sua vez tende a culpar a conjuntura internacional. Enquanto isso, os governantes desviam os recursos públicos, e os empresários ‘deslocam’ o capital para outras regiões, outras aplicações financeiras e até mesmo outros países para garantir, cada um, o seu pirão primeiro. Então, de que crise nós estamos realmente falando?  

quarta-feira, 11 de março de 2015

Eleições 2014: O terceiro turno e os profetas do apocalipse!

A presidenta Dilma tomou posse para o seu segundo mandato em janeiro de 2015 mas a campanha eleitoral de 2014 não acabou. Estamos vivendo um terceiro turno fomentado por previsões catastróficas na economia do país e alimentado pela grande mídia e redes sociais, que propagam uma crise maior do que existe na realidade. O leitmotiv é o Partido dos Trabalhadores, o PT, e a famosa ‘operação lava-jato’ na Petrobrás.
O discurso de oposição do quanto pior melhor nunca esteve tanto na moda. Na mídia, nas redes sociais e nas ruas o governo Dilma está bastante fragilizado, apesar do país viver uma normalidade institucional democrática.
No entanto, no final de cada dia, depois de ler os jornais, portais e redes sociais a sensação que o cidadão comum tem é de que o Brasil vai acabar amanhã. A situação é caótica.
A impressão que se tem é de que as oposições estão torcendo para que dê errado, pois somente assim o PT sai do poder. O cenário é o pior possível.
Tanto que é difícil acreditar que o fluxo cambial, diferença entre a entrada e a saída de dólares do país, iniciou o mês de março positivo em US$ 3,019 bilhões. O saldo é relativo à primeira semana do mês. Com o resultado, o fluxo acumulado em 2015 ficou positivo em US$ 5,78 bilhões. Os dados foram divulgados pelo Banco Central (BC). O fluxo positivo significa que a entrada da moeda norte-americana no Brasil superou a saída. O saldo positivo semanal seguiu os movimentos do segmento financeiro (investimentos em títulos, remessas de lucros e dividendos ao exterior e investimentos estrangeiros diretos) e comercial (operações de câmbio relacionadas a exportações e importações). O fluxo das transações financeiras ficou positivo em US$ 1,972 bilhão. Já o saldo comercial registrou resultado positivo de US$ 1,048 bilhão.
É difícil acreditar nessa notícia! Esse movimento da economia estaria na contramão das afirmações de que o Brasil quebrou, está em recessão etc. Afinal, o desemprego estaria aumentando e a inflação chegando a patamares absurdos, fora de controle.
A sociedade é bombardeada diariamente por notícias negativas que derrubam a autoestima do país. A economia em crise, a fragilidade do Judiciário, a corrupção em todas as áreas e a violência traçam um destino nada animador para o futuro do país.
O PT é o partido que está 12 anos no poder e, portanto, sua imagem está diretamente vinculada com as mazelas sociais e com os escândalos de corrupção. Parte da sociedade não quer saber se nos últimos anos o país teve a maior redução de desigualdades sociais da história, se a classe média aumentou, ou se mais pessoas tiveram acesso aos bens de consumo, moradia, educação e saúde.
O que importa é que, no geral, tudo funciona muito mal e alguns atribuem a culpa de tudo exclusivamente ao PT. É verdade que o povo brasileiro paga muito imposto e tem pouco retorno dos governos. O resultado é uma insatisfação crescente que alimenta o ódio e a discriminação.
O PT está estigmatizado pela corrupção praticada por seus representantes e dificilmente vai se livrar disso. O único partido político de massa do país tende a definhar e pode até desaparecer. O povo é quem vai decidir.
É evidente que o governo Dilma está de ‘aviso prévio’ e vai ter que trabalhar muito para reverter o quadro desfavorável. Mas, a política é como uma nuvem que muda muito rápido e tudo é possível.
A presidenta Dilma já passou por uma situação semelhante em 2013 e conseguiu reverter o quadro negativo. A tendência é de que o movimento que se observa hoje pelo país seja de ordem conjuntural e, portanto, possível de ser contornado.
No entanto, se as previsões pessimistas se confirmarem, ou seja, se a crise hídrica continuar, a economia entrar em recessão e a crise política se alastrar, o governo pode agonizar e preparar o terreno para a alternância do poder. Portanto, para as oposições, quanto pior (para o país) melhor (para os políticos que querem tomar o poder).

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Eleições 2014: que falta faz o Eduardo Campos.

As eleições de 2014 são as mais acirradas dos últimos tempos. Depois de três disputas com o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) conseguiu, finalmente, equilibrar o jogo. No entanto, isso se dá muito mais pela conjuntura política e econômica do que pela capacidade mobilizadora do PSDB e de seu candidato.
Aécio Neves (PSDB) teve doze anos para se preparar para ser candidato à presidente do Brasil. Ele foi governador de Minas Gerais por oito anos e senador da República por quatro. No entanto, quando foi governador perdeu a oportunidade de se diferenciar e acumular resultados na gestão que o diferenciasse substancialmente e o credenciasse para ser presidente.
A gestão do governador Aécio em Minas Gerais tem muito mais frases de efeito do que obras, programas e ações de governo para mostrar. Se o candidato fosse Eduardo Campos (PSB), a história seria diferente, pois, nesse quesito o ex-governador de Pernambuco tinha muito para apresentar.
Aécio passou a maior parte do primeiro turno da eleição surfando na insatisfação popular com os escândalos de corrupção que envolvem o partido da presidenta Dilma. Ele deixou de lado a apresentação de um programa de governo (que só foi divulgado na última semana do primeiro turno) e de resultados concretos de políticas quando foi governador de Minas Gerais.
A campanha de Campos, por exemplo, já explorava experiências inovadoras que ele implantou na área de segurança e educação, além de obras de infraestrutura na saúde e na economia do estado. Pernambuco chegou a crescer a uma taxa maior do que a China em determinado momento com a instalação de um polo naval e a ampliação de polo petroquímico e industrial.
No governo Aécio, a história é diferente. Ele não tem obras para mostrar, a economia de Minas não cresceu, a sua dívida aumentou e os escândalos se sucederam. O caso mais grave é o mensalão que envolveu o seu vice-governador no primeiro mandato, Clésio Andrade, que se elegeu senador mas teve que renunciar para não ser cassado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Com a renúncia o seu processo voltou para a Justiça comum de Minas Gerais.
Como alguém pode querer ser presidente com esse histórico de governador? Aécio apostou no desespero e na revolta das pessoas com os escândalos de corrupção. Será que um gestor com esse perfil tem bagagem para encarnar as mudanças que o Brasil precisa continuar fazendo?
A propaganda eleitoral e os debates permitem expor os candidatos com suas potencialidades e fragilidades. No caso de Aécio, as pesquisas indicam que depois de um momento ‘salvador da pátria’ as pessoas começaram a perceber que se trata mais de um ‘fake’ do que uma perspectiva real de mudança. Pelo sim ou pelo não a tendência é que a maioria prefira o certo ao duvidoso.
O PT por sua vez, ou aprende a lição ou está fora do páreo na próxima. A sociedade já demonstrou a sua revolta e o próximo governo terá que ter critérios mais republicanos e menos partidários para ocupar os cargos públicos e nas empresas estatais. Do contrário, a população já deu um ‘aviso prévio’.
Ou seja, mesmo reconhecendo todo o avanço realizado pelos governos Lula e Dilma, o PT deve ganhar mais esta eleição muito mais pela ausência de uma oposição qualificada do que pelos seus próprios méritos. Os escândalos de corrupção deixaram sequelas gravíssimas. No entanto, não há uma liderança no horizonte com o perfil de Eduardo Campos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eleições 2014: o fenômeno da ‘bolha política’ Aécio Neves.

O candidato Aécio Neves (PSDB) está surfando numa onda que, segundo pesquisas de intenção de voto, não pára de crescer. Se o segundo turno for considerado a continuação do primeiro, Aécio ultrapassou Dilma (PT) e registrou um cruzamento no gráfico de intenções de voto. Quando isso acontece é quase irreversível, a não ser que aconteça um fato novo determinante.
Quando Marina (Rede) ultrapassou Dilma nas intenções de voto no primeiro turno, o PT fez uma campanha de desconstrução da sua candidatura que a levou ao terceiro lugar. No entanto, consideradas as especificidades de cada processo, é muito difícil acontecer um ‘duplo cruzamento’.
Se o segundo turno for considerado como uma nova eleição, e a referência seja a primeira pesquisa na qual Aécio aparece em primeiro, ainda há esperança para Dilma. Novas pesquisas vão mostrar se a tendência permanece a mesma ou se Dilma pode reagir. Se isso acontecer e Dilma ultrapassar o Aécio o cenário se inverte.
Mas, é possível considerar o segundo turno uma nova eleição? A resposta é sim. Em princípio o jogo zerou e são apenas dois candidatos com o mesmo tempo no guia eleitoral. Os debates e a quantidade de indecisos podem fazer a diferença, além do xadrez dos grupos políticos nos estados da federação.
O Aécio está sendo favorecido pelo antipetismo que é um fenômeno muito forte na sociedade. Existe uma geração de pessoas que nunca vivenciou outro governo. O PT é identificado com o stablishement e as mazelas sociais, apesar dos avanços que muitos não conseguem considerar.
A corrupção é um motivo muito forte para querer a alternância de poder e serve de justificativa para votar no Aécio. Foi assim também com Collor, cuja justificativa era caçar os marajás do serviço público.
Agora, o Aécio se apresenta como o ‘caçador’ de corruptos. O ‘salvador da pátria’. Uma proposta na contramão da chamada ‘nova política’, pois o país não precisa de um ‘salvador’ e sim de um projeto alternativo de poder.
Aécio é o candidato de uma ‘mudança’ que ninguém sabe ainda qual é. A única certeza é que não será o PT. O candidato conseguiu a façanha de fazer uma campanha para presidente sem apresentar propostas concretas e chegar ao segundo turno.
Mas, é possível seguir algumas pistas e agora no segundo turno ele terá necessariamente que apresentar alguma proposta. Caso eleito, o seu ministro da economia será o Armínio Fraga que já foi presidente do Banco Central do governo Fernando Henrique (PSDB).
Com essa escolha temos a certeza de que se trata de uma proposta de mudança nada inovadora. Afinal, Fraga já foi mal sucedido uma vez.
Segundo ele, o Brasil está num carro rumo ao abismo e temos duas alternativas: ou pulamos do carro ou fazemos a volta. Isso lembra uma frase criada pelo regime militar: ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. Como solução para a economia carece de objetividade.
A sociedade brasileira está numa situação difícil. De um lado, um governo atolado em denúncias de corrupção. De outro, um grupo que quando esteve no poder jogava toda a corrupção para debaixo do tapete.
O Aécio não diz o que vai fazer de forma objetiva porque talvez se disser as pessoas não votem mais nele. Ele aproveita o sentimento de repúdio e de revolta da sociedade para pedir uma espécie de ‘cheque em branco’ ou ‘procuração’ com o discurso de mudança. O resultado disso pode ser um grande estelionato eleitoral como foi o Collor.
A alternância de poder é salutar para a democracia. No entanto, é preciso que a sociedade saiba o que será feito. A falta de transparência de Aécio já é um mau presságio.
O Aécio se apresenta com uma estética convincente para o país, bastante diferente daquele que os mineiros conhecem. Resta saber se o PT vai ter a mesma eficiência para desconstruir a sua imagem como fez com a Marina.
A desconstrução de Marina acabou levando-a para outro campo político e apesar do seu discurso da ‘nova política’ declarou apoio ao Aécio Neves. Na realidade, a sociedade vai ter que escolher entre dois modelos: um governo que pratica uma política econômica heterodoxa de desenvolvimento autônomo com distribuição de renda, ou um governo liberal que tende a implantar uma política ortodoxa de desenvolvimento associado em detrimento do social.
O PSDB conseguiu criar uma ‘bolha política’ chamada Aécio Neves. Só resta saber se ela vai estourar no segundo turno ou depois da eleição. Com a palavra o eleitor.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Eleições 2014: Dilma e Marina, dois modelos em disputa.

Qualquer análise sobre o processo de eleição para presidente da República do Brasil no ano de 2014 tem que fazer referência às manifestações de junho de 2013. Afinal, a população expressou diretamente nas ruas a sua insatisfação com os serviços de saúde, educação, segurança, mobilidade etc. comparando-os como o padrão Fifa dos estádios construídos para a Copa do Mundo.
A população se mobilizou para reivindicar também uma reforma política e se contrapor aos escândalos de corrupção denunciados no processo do mensalão. Os partidos políticos e os sindicatos tentaram surfar na onda de insatisfação social empunhando as suas bandeiras mas foram rechaçados pela população, pois também são representantes de um modelo delegativo em crise que não representa a sociedade como um todo.
A conjuntura econômica, política e social desfavorável é marcada pela crise no crescimento econômico e no sistema de representação política. Essa insatisfação social foi reforçada pelo declínio do ciclo de expansão do acesso aos bens de consumo e de serviços.
No início do processo, as principais candidaturas postas eram a de Dilma, Aécio, Eduardo Campos e Marina. A Dilma tinha pela frente um processo de reeleição com um cenário desfavorável, com o governo enfrentando várias crises no plano econômico, político e social. Sem carisma e sem ser mais do que o PT como Lula sempre foi, Dilma se manteve firme com o projeto de reeleição e sempre liderou as pesquisas de opinião.
Aécio passou a se apresentar como representante legítimo da oposição, mas sem uma proposta inovadora. O seu discurso não conseguiu alavancar a sua candidatura como alternativa explícita para o Estado social criado por Lula e não agregou novos eleitores.
Eduardo Campos se apresentava como alternativa à Dilma dentro do mesmo campo político, concorrendo com Marina que tentou o registro do seu partido para entrar na disputa eleitoral com a Rede Sustentabilidade.
Apesar de outros partidos conseguirem o registro como o PEN, o PSD e o PROS, curiosamente, a Rede não conseguiu. Mas, se a intenção era isolar e deixar de fora da eleição uma candidata que teve quase vinte milhões de votos em 2010, Marina criou o primeiro fato novo significativo do processo eleitoral. Ela decidiu apoiar Eduardo Campos e se filiou ao PSB.
Marina não imaginava que o Eduardo Campos morreria num acidente de avião que comoveu o país inteiro. O PSB lançou então a candidatura de Marina e criou outro fato relevante para a disputa eleitoral. O embate Marina versus Dilma.
Cada candidatura tem uma característica própria. Dilma defende a manutenção do status quo e enfrenta o aumento da inflação. Além disso, ela sofre os efeitos das manifestações de 2013, do mensalão, do escândalo da Petrobrás e do desgaste de 12 anos de poder do PT. Ainda assim, se mantém na frente das pesquisas de intenção de voto.
O PT representa o stablishement que é responsável pelas conquistas sociais (agenda positiva), mas também encarna o papel de responsável pelas mazelas na saúde, educação, segurança, mobilidade etc. (agenda negativa). O governo de Dilma tem uma matriz ideológica ‘estadocêntrica’ na qual o espaço público é identificado com o Estado e com a centralização burocrática. O seu projeto de megaestado inclui o aparelhamento do Estado com a representação sindical, partidária, estudantil, ONGs etc. de cerca de 60 mil pessoas.
Aécio carrega a herança do governo FHC. Apesar disso, passou anos na oposição sem apresentar um projeto alternativo de poder. O seu discurso é tradicional e representa a volta a um passado não desejado pela maioria da sociedade brasileira. A sua matriz ideológica é social-liberal, vinculada ao neoliberalismo e à crítica ao Estado social.
Marina é identificada com o campo político de Dilma marcado pelo Estado Social. Mas, ela apresenta um discurso de 3ª geração que a diferencia de Dilma. Marina defende a ‘nova política’ que é baseada no ativismo social (modelo sociocêntrico) expresso nas ruas em junho de 2013 como contraponto ao modelo de representação (delegativa) sindical e partidária e de aparelhamento do Estado do governo Dilma (modelo estadocêntrico).
A proposta da nova política é baseada no desenvolvimento de uma sociedade estruturada em rede, para além da estrutura verticalizada e hierarquizada dos sindicatos e partidos. Trata-se de um novo modelo de representação de interesses que segue uma lógica do ativismo social numa perspectiva autoral. A matriz ideológica sociocêntrica é mais identificada com o espaço público na sociedade (nova política). Para implantar esse modelo Marina defende o uso de novas tecnologias de informação e de comunicação do Estado com a sociedade.
No entanto, muitos eleitores não conseguem perceber esses elementos no discurso de Marina. Os fatores que influenciam o voto do eleitor estão mais vinculados às questões de gênero, faixa etária, renda, meio social etc. Nesse sentido, o papel da juventude e das redes de informação na formação do voto é fundamental. A sua candidatura se mantém porque não há mais o monopólio da informação, do contrário não teria eco.
Para o eleitor comum a preocupação é cada vez maior com o resultado produzido pelo governo, pelas conquistas sociais; o eleitor tende à reconhecer o candidato que produz resultado. A aceitação do discurso emocional messiânico populista ainda é uma realidade mas numa proporção menor. A tendência então é apoiar a candidatura que represente a melhoria de vida e apresente resultados concretos. O discurso racional tem maior penetração no eleitorado. 
Ainda existe uma desconfiança em relação à mudança, ao novo. O eleitorado tende a ser conservador e valorizar as suas conquistas.
Mas, afinal, o que está em disputa na eleição presidencial no Brasil? De um lado a manutenção do status quo, de outro a mudança. De um lado um modelo estadocêntrico, de outro uma proposta de modelo sociocêntrico.
O caldo do debate sobre qual caminho seguir é formado pelas conquistas sociais de um lado, e pelos escândalos de corrupção de outro. O medo de mudar e dar errado também povoa a mente do eleitor. Lula enfrentou isso e agora é a vez de Marina.
A principal agenda nestas eleições é a manutenção do Estado social e a ampliação das conquistas sociais. Ou com a manutenção do modelo estadocêntrico ou com a implantação de um novo modelo. A reforma política pode mudar as regras do jogo com os mesmos atores ou criar uma nova política que implica na superação do modelo tradicional de representação política.
Os candidatos enfrentam problemas que podem ajudar a avaliar as perspectivas de cada um. A Dilma não tem o carisma de Lula, não é mais do que o PT como Lula é, e tem mais dificuldade de superar os escândalos produzidos pelo seu governo. O Lula tinha mais habilidade neste quesito. No entanto, ela está se saindo muito bem apresentando propostas de reformas para combater a corrupção que é o maior calo do seu governo.
O Aécio não tem carisma, simboliza e defende um passado que a sociedade não quer voltar. O PSDB representa a crítica ao Estado social que é apoiado pela maioria da população brasileira. O seu trunfo é que ele simboliza o antipetismo, muito em voga hoje na sociedade.
A Marina tem a resistência do eleitorado conservador e muito pouco tempo de guia eleitoral no primeiro turno. Ela é alvo constante do terrorismo eleitoral da campanha do ‘medo’ da mudança, do ‘incerto’ e não tem como se defender à altura. Ela sofre de bullying eleitoral do marketing que tenta construir a imagem de candidato incapaz de governar. O seu trunfo pode ser a vitimização e o antipetismo.
Mas, afinal, a tendência do voto do eleitor é aprovar a política de resultado ou reprovar o petismo? A tendência do eleitor é assegurar a manutenção do campo político no poder com Dilma ou com Marina. Por isso, as chances de Aécio são mínimas.
A Dilma tem a vantagem do poder da caneta e do ‘medo’ da mudança, mas tem o ônus de ser governo e do PT. A Marina tem a vantagem de ser do mesmo campo político sem ser do PT.
No segundo turno o embate entre Dilma e Marina com o mesmo tempo no guia cria novas possibilidades para aprofundar o debate político e estabelecer uma delimitação mais nítida das duas propostas. O tempo de exposição vai favorecer Marina que é prejudicada no primeiro turno, pois tem uma boa retórica e posições bem firmes. A Marina não lê os discursos, ela expressa as suas ideias e isso é um diferencial importante.
O debate polarizado vai definir a escolha do eleitor. Será uma nova eleição com a possibilidade de surgir novos fatos que podem mudar os rumos da campanha: denúncias, desempenho nos debates etc. O jogo está aberto. 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Eleições 2014: pesquisa eleitoral e voto na Paraíba.

Se considerarmos as pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora na Paraíba, a eleição para governador já estaria definida em favor de Cassio Cunha Lima (PSDB). O cenário seria favorável ao candidato em todas as regiões do Estado com uma margem tão ampla que os blogs e portais destacam a possibilidade de vitória já no primeiro turno.
Recentemente, a Paraíba teve um fenômeno parecido. Em 2010, José Maranhão (PMDB), então candidato a governador, liderava todas as pesquisas com ampla margem de votos. Os principais assessores do então candidato já falavam em comprar o terno da posse.
O que ficou comprovado depois da abertura das urnas é que as pesquisas não correspondiam à realidade. Os institutos de pesquisa se esquivaram afirmando que as pesquisas representavam um momento e que o eleitor pode mudar de opinião na última hora.
No entanto, o que parece ser uma mudança de opinião do eleitor pode ser uma manipulação flagrante de dados para tentar criar um cenário que não existe no imaginário do eleitorado. Muitos estudos apontam para o fato de que o eleitor tende a votar no candidato com perspectiva de vitória. Esse argumento sustenta uma estratégia eleitoral arriscada de manipulação de pesquisas eleitorais que segue a lógica do ‘se colar, colou’.
As pesquisas eleitorais não podem ser analisadas apenas pelos números que apresentam e também não podem ser o único referencial para entender o comportamento eleitoral. Quem faz análise política precisa fazer uma análise qualitativa da conjuntura para tentar compreender de que forma os interesses da sociedade vão se expressar nas urnas.
A estratégia do PSDB nas eleições de 2014 é muito parecida com a do PMDB de 2010. Você cria um cenário com pesquisas eleitorais que, mesmo questionadas e reprovadas pela Justiça Eleitoral, cumprem o papel de criar uma realidade desejada por um grupo político. Ou seja, a informação que o cidadão tem e reproduz nas discussões de mesa de bar, em casa e com os amigos é o resultado das pesquisas.
Essa estratégia política tem um poder muito grande de disseminar uma informação com ‘caráter’ científico. Ou seja, o eleitor tende a aceitar a pesquisa como instrumento de verificação de intenção de voto e identificá-la como ‘verdadeira’ mesmo que o seu voto seja diferente.
A pesquisa eleitoral se transformou na Paraíba, assim como em outros lugares no país, numa ferramenta de manipulação da opinião pública. No entanto, na Paraíba, essa estratégia não funcionou em eleições anteriores.
Para acreditar que essa estratégia funcione é preciso considerar que a opinião pública é manipulável. Mas, o eleitor de hoje não é mais o mesmo de dez ou vinte anos atrás. Hoje, o eleitor está cada vez mais pragmático e tende a apoiar os gestores que realizam obras e melhoram a sua condição de vida e a dos seus filhos.
Nesse sentido, é preciso procurar entender a lógica dominante no eleitorado em função dos benefícios que ele tem conquistado. Afinal, quem votaria no governador Ricardo Coutinho (PSB) candidato à reeleição? Essa é a pergunta que deve ser feita.
As pessoas que votam no governador foram beneficiadas de alguma forma pelas ações do governo, seja pelo Orçamento Democrático, o Empreender Paraíba, o Pacto pelo Desenvolvimento, com o transporte escolar, as estradas, a água na torneira, hospitais, escolas etc. e até mesmo o emprego no Estado. Afinal, mais de dez mil concursados foram convocados e as categorias receberam reajuste salarial todos os anos, inclusive, no caso da educação, o 14º salário. Além disso, os movimentos sociais no campo e na cidade têm uma aproximação com as ações do governo estadual, sem contar as famílias beneficiadas pelo bolsa-família. Qual seria o percentual do conjunto dessa população no eleitorado paraibano?
Quando se analisa os dados de investimentos do governo do Estado da ordem de sete bilhões de reais, isso representa um conjunto de obras e serviços que estão gerando emprego e renda para muitas famílias que, por sua vez, devem estar satisfeitas com a oportunidade gerada. As pessoas que são beneficiadas diretamente tendem a repercutir positivamente junto aos seus familiares, amigos etc.
Do ponto de vista da análise qualitativa, a categoria mais insatisfeita com o governo é a dos políticos e familiares que perderam muitas benesses que recebiam do Estado. A partir de então, com os interesses pessoais atingidos, uma onda de insatisfação de um segmento importante na formação da opinião pública se difundiu.
Mas a pergunta que fica é a seguinte: será que os interesses contrariados de uma minoria representa os interesses da maioria da população? Será que a população vai apoiar a iniciativa de um governo que investe em obras, serviços e ações, ou vai ficar do lado da minoria contrariada? Com a palavra o eleitor.